ESPAÇO ABERTO
Políticos e a violência infantil
Francisca Vergínio Soares
As várias rebeliões e, consequentemente, a destruição da Unidade Social de Internação de Londrina (Usoil) ou o Educandário no final de 2004 (para citar apenas o caso de Londrina) revela a falência do modelo que se propõe a recuperar adolescentes infratores no Estado do Paraná. Os diferentes caminhos apontados por especialistas em adolescentes e em violência urbana convergem para a necessidade urgente de se reformular desde a triagem dos infratores até o modelo de atendimento, que reúne em uma mesma instituição dezenas (quando não centenas) de adolescentes - sem distinção de idade e tipo de delito. Estas instituições criadas para devolver à sociedade jovens recuperados, jamais cumpriram sua função porque foram feitas para não funcionar, caso contrário não teríamos um número tão alto de reincidência.
O que falta para que elas funcionem? O que falta para que esse tema se torne importante numa pauta de discussão na mesa da Câmara Federal ou mesmo Municipal? O que é preciso ser feito para que os congressistas nesses diferentes níveis se voltem para uma causa que aflige pais e responsáveis, esses, que provavelmente os elegeram, mas que só fazem lutar por seus salários e verbas? O novo presidente da Câmara Federal, Severino Cavalcante, alegou que o parlamentar não consegue sobreviver com o R$ 12.847, daí a urgentíssima elevação para um salário de R$ 21 mil, fora é claro, os R$ 35 mil de verba dos gabinetes privativos.
Convenhamos, é muito dinheiro para uma só pessoa, é uma vergonha num país em que a violência infanto-juvenil tem crescido a passos galopantes por que não há projetos contínuos que contemplem os jovens. Em nível municipal a recíproca é verdadeira. Ou seja, até agora não vi, não li nenhuma manifestação de vereadores que colocasse na ordem do dia a questão do absurdo que é o aumento do envolvimento do segmento infanto-juvenil com a criminalidade em Londrina. Não vi nenhum deles emitir qualquer sugestão ou opinião sobre o assassinato do adolescente no último dia 19 no Ciaadi.
Será que não têm nada a dizer ou será que como muitos, vêem esta situação como irreversível e ou sem solução? Não é licito pensarmos que a aprovação por 11 votos a sete, do aumento de R$ 4,3 mil para R$ 6,8 mil (de R$ 10,3 mil para R$ 13,8 mil no caso do gabinete da Presidência) para contratação de até cinco assessores não poderia ser investido em projetos sociais com a família e com os próprios jovens para evitar que enveredem para o crime? Em suma, acrescentar mais R$ 532.678 de gastos anuais ao Legislativo, não é uma ofensa face ao abandono a que vive nossa infância? Execuções nas ruas, nos guetos, nos internatos, à luz do dia, no meio da noite, a qualquer hora. Os personagens quase sempre adolescentes que matam ou são mortos barbaramente. O Estado? Onde está o Estado? Está ocupado demais debatendo seus próprios interesses.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Sociologia e Política em Londrina
Engodo do pedágio
Saulo Alves
O atual governador foi eleito principalmente por ter prometido baixar ou acabar com o pedágio. Durante sua campanha, chegou a distribuir milhares de adesivos com a frase ''Pedágio é roubo'', que foram afixados em veículos. Passamos mais de dois anos de governo, o pedágio nem baixou e nem acabou. Façamos justiça: duas das seis concessionárias que exploram o Anel de Integração aceitaram baixar sim, mas à custa do cancelamento de todas as suas obras e outras obrigações financeiras. Um grande negócio para elas (afinal, o governador está do lado de quem?). Agora vem essa história do malfadado pedágio estadual, ligando Maringá a Francisco Alves. Uma péssima notícia para o paranaense. A estrutura de governo, sabidamente lenta e pesada, aventura-se em setor que não conhece. Enquanto outros governos, como o de São Paulo, livram-se de estradas, o Paraná segue na contramão. É previsível: vem aí uma fábrica de déficit. Ao destinar recursos públicos para a implantação desse pedágio, o governo estadual está deixando de investir na saúde, na educação, na segurança e em outros setores prioritários. O trecho a ser pedagiado irá até Francisco Alves. Por que não até Guaíra, 90 km adiante? Simples: essa estrada, uma das piores do Paraná, é federal e certamente mal-conservada. O pedágio estadual não prevê nenhum tipo de obra, melhoria ou serviços de apoio aos usuários. Conclusão: vamos pagar só por uma duvidosa operação tapa-buracos. Pensando bem, esse tal pedágio soa como um engodo, fruto dos interesses eleitoreiros de seu idealizador. Mas o povo não é bobo. A propósito, se o governo estadual quisesse mesmo acabar com o pedágio ou simplesmente reduzi-lo, começaria pela tarifa imposta pelo DER a quem precisa passar pela ponte em Guaíra, ligando o PR ao Mato Grosso do Sul. Eis aí um péssimo exemplo de pedágio mantido pelo governo paranaense, cujo valor é extorsivo, diga-se de passagem, cerca de R$ 1 por quilômetro.
SAULO ALVES (técnico eletrônico) - Maringá





