ESPAÇO ABERTO
As pontes também caem
Antonio Alves de Arruda
Valendo-me do recente fato da queda da ponte sobre a represa Capivari-Cachoeira na BR-116 proponho aqui uma reflexão. A ''ponte'' sempre teve grande significado em nossa cultura. Simbolicamente representa ''ligação, conexão, relação, vínculo''. Entendendo que o ser humano não é uma ilha, é um ser relacional e se torna humano com os outros. Não é sem razão que grandes investimentos são dotados na construção delas.
Imagine agora os transtornos para os usuários da ponte que caiu. Terão que percorrer caminhos mais longos e precisarão de mais tempo para chegar ao objetivo, terão mais gastos. Enfim, lamentarão a sua falta. Bela e maravilhosa, seriamente danificada.
Parece que esse fato também acontece com cada um de nós. Várias pontes são construídas para que possamos sobreviver. É imprescindível construir pontes, o mundo é sustentado assim. Temos que admitir que o importante não é apenas construir pontes, mas ter a condição de mantê-las.
Percebe-se agora, após as análises e críticas de entendedores, que a manutenção da ponte foi falha. Precisamos aprender que é a manutenção da ponte que permitirá uma ligação ou uma relação duradoura. De repente levados pela falta de conhecimento, ou outros interesses, muitos constroem pontes como se fossem objetos descartáveis.
Na realidade não é tão simples assim. Leva tempo, estudos e muito dinheiro. Por mais que se tenha facilidade de construir pontes, sempre haverá uma mais desafiadora e que certamente merecerá maior cuidado. Quanto maior a dificuldade mais significativa a ponte será.
Algumas pontes ainda são grandes desafios para a humanidade: aquela entre a riqueza e a miséria, entre a violência e a paz, entre o ser e o não ser, e muito mais, principalmente, aquelas que você ainda não conseguiu construir.
Como a ponte caiu, alguns tentam justificar ou atribuir o fato a uma mera fatalidade. Coisa do destino, lamentavelmente é uma saída muito ingênua e fácil de ser apresentada. Não se pode esquecer os danos e a vida que ali encontrou seu fim.
A queda de uma ponte é de responsabilidade de todos que dela se servirem. Todos têm uma parcela de responsabilidade: aquele que não a projetou corretamente, quem não a usou adequadamente, quem não zelou ou a manteve suficientemente.
Uma ponte é muito mais que um ponto de ligação de dois espaços, na verdade é a parte de uma conexão com o mundo. Cuidemos delas.
ANTONIO ALVES DE ARRUDA é professor de Filosofia e educador social em Londrina
Uma só questão: a descaracterização
Walmor Macarini
Quando o Cine-Teatro Ouro Verde esteve por uns tempos desativado, os proprietários o colocaram à venda, sem estabelecer destinação para o imóvel. Como jornalista, levantei a questão e iniciei diligências para que a Universidade Estadual de Londrina (UEL) adquirisse a casa. O anseio era este: a preservação intacta daquele patrimônio cultural. Os contatos começaram por Cleto de Assis, que era produtor gráfico na Folha de Londrina e também assessor do reitor da UEL, Oscar Alves, que de sua vez era genro do ministro da Educação, Ney Braga, este ligado estreitamente ao governador Jayme Canet. Tudo encadeava-se para dar certo. O dinheiro para a compra tinha que sair desse meio. Capítulo final: o Ouro Verde foi adquirido pela UEL, graças a essas pessoas e a esse movimento.
Pouco antes, a jornalista e produtora teatral Joana Lopes, o jornalista e escritor Domingos Pellegrini, e eu (todos deste Jornal), formavam o trio extra-oficial designado para assessorar o poder público na construção do Teatro Municipal. José Richa era o prefeito. Tudo andava bem, idéias luminosas surgiram, mas com a eleição do prefeito seguinte, que não era do agrado do regime ditatorial vigorante, houve um ''aconselhamento'' para abandonar o projeto, para que não sobrassem méritos para esse político e nem para Joana Lopes, comunista declarada. Estas lembranças são apenas para rememorar campanhas passadas, pela causa cultural.
Escrevi contra a destruição da velha Catedral, clamei pela volta das torres e dos sinos, ausentes do templo novo durante vários anos. Também usei deste jornal para tentar salvaguardar o velho edifício da Prefeitura e da Câmara, no centro. Foi em vão. Sou a favor do novo, e aprecio muito mais a arquitetura contemporânea do que a antiga, mas ocorre que as pessoas olham para o passado e desejam reverenciá-lo.
Em Londrina, essa vontade preservacionista relevou-se na implantação do Museu Histórico. Se as coisas dos antepassados precisam ser guardadas, então isso tem valor. Vejo agora com tristeza que querem descaracterizar a parte dos fundos do edifício-sede do Museu, que por si mesmo é uma relíquia. O projeto é anexar um varandão (de linhas avançadas), com o nome de Memorial do Pioneiro, mas destinado a guardar vagões do antigo sistema ferroviário.
E agora leio que o escritor Domingos Pellegrini é a favor. Fico sem jeito de contrariar o velho companheiro de jornalismo e pessoa tão iluminada. Dinho (é assim que o chamamos), como argumento exaltou o desenho dos arquitetos, mas não falou da descaracterização do edifício-atual. O deputado Alex Canziani (autor da idéia), também falou de tudo, menos da... descaracterização. Este é o ponto fundamental.
A edificação contemporânea situada dentro do ''u'' do edifício do Louvre, de que fala o escritor, é uma majestosa obra que se percebe distinta. Então, que se faça algo semelhante em Londrina, dentro das respectivas proporções, mas à parte, sem junções. Nada contra os arquitetos. Mas o projeto deles não invalida a descaracterização. Quando a bomba atômica foi produzida os cientistas que lhe deram forma eram os melhores da época...
Há espaço público ali próximo, onde o Memorial pode ser edificado algo que seja distinto, monumental sem precisar ser gigante. Tudo, menos descaracterizar o prédio do Museu, que foi a antiga estação ferroviária e que é um significativo marco arquitetônico de Londrina.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





