ESPAÇO ABERTO
O país do 'faz-de-conta'
Celso Antônio Rossi
Terça-feira feira de Carnaval não é feriado oficial, reonhecido por decreto ou outra norma legal. Mas o comércio de um modo geral não funciona, as escolas não têm aula e as prefeituras decretam ''ponto facultativo''. Todo mundo ''faz-de-conta'' que é feriado.
O mesmo se dá com as manhãs de segunda e de quarta-feiras do período de Carnaval. E todos também ''fazem-de-conta'' que temos pelo menos ''meio-feriado'' nesses dois dias.
A Constituição Federal assegura o livre exercício dos cultos religiosos com o que, então, o Brasil é um Estado laico. Todavia, já no preâmbulo da Constituição da República do Brasil, foi inserido que ''os representantes do povo sob a proteção de Deus, promulgam...'' o que indica que aqueles que são ateus ou professam outra religião que não tenha como Ser Superior Deus, ficaram marginalizados. Mas todo mundo ''faz-de-conta'' que o Brasil é uma nação laica...
Durante o ano existem vários feriados religiosos, alguns nacionais, outros municipais. Só que esses feriados religiosos dizem respeito unicamente à Igreja Católica, embora desde o início da República Estado e Igreja estejam separados. Seriam eles então feriados católicos.
Assim, temos feriados católicos como o de Corpus Christi, o da Padroeira do Brasil, o da Sexta-feira da Paixão, sem se falar que muitas cidades (se não forem todas) têm também o seu feriado municipal em homenagem ao seu padroeiro local. E são eles, sempre, santos pela Igreja Católica. E todo mundo continua a ''fazer de conta'' que o país é um Estado laico...
E de faz-de-conta em faz-de-conta (e são muitas as situações como estas aqui narradas) o Brasil vai seguindo em sua caminhada fazendo de conta que ninguém percebe tais contradições.
Ou se oficializa os feriados disfarçados e se transforma os religiosos em pontos facultativos para os seguidores da respectiva religião ou vamos continuar a ''fazer de conta'' que vivemos em um país sério e de liberdade religiosa.
CELSO ANTÔNIO ROSSI é conselheiro estadual da Ordem dos Advogados do Brasil no Paraná e advogado em Jacarezinho
As mortes da advogada e do dentista
Marcelo de Carvalho Santos
Não conheci a advogada Eliane Patrícia da Silva. Mas, na terça-feira, dia 11 de janeiro, fiquei sabendo que ela morreu, perto de Maringá, vítima de um acidente automobilístico na semana passada. Ela havia feito uma audiência em Porecatu no período da manhã, e tinha outra audiência em Cianorte, às 15 horas. Coloco-me no lugar de seus familiares e consigo imaginar a dor que estão sentindo.
As circunstâncias da morte me fizeram refletir. E agora coloco-me no lugar de Eliane. Também convivo com advogados e advogadas que estão constantemente nas estradas, cumprindo a dura rotina das audiências. Quando saímos já estamos preocupados. Nas noites que antecedem as audiências dormimos mal, preocupados em não perdermos a hora, em não chegarmos atrasados às audiências.
Ao pegarmos a estrada estamos pensando na audiência, na estratégia, nas perguntas, conjeturando as respostas das testemunhas. Enfrentamos estradas ruins e muitas vezes clima hostil; frio, calor, temporal. Enfrentamos, eventualmente, ânimos exaltados de advogados, partes, juízes. Quando voltamos para casa estamos exaustos, no limite do cansaço físico e mental, mas temos prazos vencendo...
Fiquei sabendo da morte de Eliane por acaso. Ela era advogada aqui em Londrina. Segundo soube, era uma advogada jovem, talentosa, e estava se preparando para fazer pós-graduação. Ao saber de sua morte, procurei na internet, nos jornais, e não vi uma única linha sobre o acidente, sobre ela.
Nestas consultas, o que me chamou a atenção foi a imensa repercussão que teve a morte de um dentista que estava escalando o pico Aconcágua, na Argentina. Há uma semana vê-se todos os dias na TV e nos jornais notícias sobre o dentista-alpinista. Sobre o quanto ele se preparou, sobre o quanto as autoridades se esforçaram para trazê-lo para o Brasil, sobre seus sonhos, sobre onde residia, sobre sua idade, há quanto tempo era casado, quantas montanhas já tinha escalado, etc. Por quê?
Por que nada foi escrito sobre Eliane? Eliane também se preparou. Eliane também tinha sonhos. Eliane não estava arriscando a vida por diversão, por aventura. Estava trabalhando, cumprindo seu dever. Sabia que podia acidentar-se e morrer prematuramente. Poderia ter-se acovardado e encontrado um outro emprego ou uma outra profissão mais seguros, e que não lhe exigisse tanto, física e emocionalmente. Eliane, portanto, era uma advogada convicta, exemplo para seus pares, motivo de orgulho para seus pais. E, apesar disso, nada, absolutamente nada, foi escrito sobre ela.
Estas poucas linhas não lhe fazem justiça, mas acho que tinha a obrigação de render-lhe, publicamente, minhas homenagens.
MARCELO DE CARVALHO SANTOS é advogado em Londrina





