ESPAÇO ABERTO
Solidão Social
Rubya Tesser
O tipo de relacionamento que construímos, em nossa sociedade, não contribui para que o indivíduo se sinta naturalmente contente. A modernidade trouxe consigo conseqüências que restringem a proximidade e a intimidade entre as pessoas. Sob o ponto de vista das facilidades da vida moderna, a convivência humana se tornou uma atividade prática e cômoda. Tudo acontece como se o relacionamento humano fosse apenas o veículo das conquistas individuais. Por isso, o triunfo do individualismo é responsável pelas chagas da solidão.
Nossas ocupações diárias, os compromissos e a própria vida social estão entre as coisas que julgamos ser prioridades. Porém, a maneira com que buscamos alcançar nossos objetivos não contribui para mantermos relacionamentos de compromisso com as pessoas, isto é, quando cultivamos uma certa empatia pelo próximo. A rotina consome nossa disposição solidária e, muitas vezes, nos obriga a imprimir um ritmo de vida alienante. Tudo isso ao custo de nos desprendermos do olhar poético sobre as circunstâncias da vida.
Enquanto não descobrirmos que a solidão é causa imediata da vida caótica e sem reflexão que levamos, não estaremos preparados para compreender o porquê de sermos tão solitários e infelizes. Pois, para mantermos um vínculo de profundidade com pessoas com as quais convivemos é necessário abdicarmos de parte do precioso tempo que consumimos na busca frenética por nossas conquistas individuais. E ainda assim veremos que a raiz do problema se encontra na cultura que exalta os valores individuais em detrimento daquilo que é coletivo.
Afinal, a necessidade de convivência em grupo permanece, ainda que os seres humanos encontrem uma maneira mais moderna de realizar isto. O importante é não perdermos a sinceridade de nossos atos e discursos. Pois autonomia do indivíduo está onde a solidão é substituída pelos laços de fraternidade.
RUBYA TESSER, de 22 anos, é estudante em Londrina
A educação irrestrita
Célia Musilli
Ontem, no maior shopping de Londrina, duas mulheres bem-nascidas comentavam que nunca tinham visto ''tanto pobre descendo dos ônibus para prestar vestibular no campus da UEL''. Deveriam estar se referindo a grosso modo ou diria mesmo que de modo grosso ao sistema de cotas destinadas aos negros e aos estudantes de escolas públicas que, este ano, foi implantado na Universidade Estadual de Londrina, obedecendo a uma espécie de princípio de ''correção social''.
O assunto nos faz refletir sobre as incoerências da sociedade brasileira. Na hora de matricular os filhos no ensino básico, os pais das classes média e alta fazem questão de que estudem em escolas particulares na tentativa de lhes garantir um futuro bem-sucedido. Mas na hora do curso superior, estes mesmos pais preferem que os filhos tenham acesso às universidades públicas. A razão é simples, apesar dos problemas que não são poucos as instituições públicas ainda mantêm cursos de excepcional qualidade, concentrando em seus quadros parcela significativa da inteligência brasileira.
Isso não significa, necessariamente, que as universidades particulares não sejam bem dotadas de condições técnicas e recursos humanos. O País tem faculdades particulares que não ficam nada a dever em competência na hora de preparar novos profissionais para o mercado. Porém, pesa sobre algumas delas a incongruência do sistema corruptível que durante décadas obedeceu à máxima ''pagou, passou''. Muitas fazem segunda e até terceira chamada para garantir salas sempre cheias de alunos que podem pagar mensalidades caras.
Se hoje os filhos da elite brasileira têm que disputar fatia menor nas universidades públicas que adotaram o sistema de cotas, sem dúvida os menos favorecidos aqueles facilmente identificados dentro dos ônibus que chegam ao campus no dia do vestibular têm razões para acreditar que estão mais próximos da realização de um sonho: conseguir formação superior. Ou seja, aqueles que não têm internet instalada no quarto e mal arranham o inglês já podem, com um pouco mais de segurança, disputar uma vaga mesmo que, lá na frente, tenham dificuldades para acompanhar uma turma ''mais esperta''.
Por sinal, o argumento de que os estudantes das escolas públicas não terão condições de acompanhar os sabidos oriundos de cursinhos bons e caros, também nos faz refletir sobre a necessidade das universidades que adotaram sistema de cotas darem continuidade ao serviço de inclusão social, seja recorrendo a aulas suplementares, seja equipando as bibliotecas para que os pobres tenham formação em nível real de igualdade. Quem sabe, mutirões de estudo reunindo alunos bem e mal preparados seja uma experiência nova e positiva para todos.
Decerto, a elite sensível e inteligente do Brasil pode colaborar com a formação de uma nação independente. E, no futuro, quem passou pelas universidades, seja rico ou pobre, possa dar sentido maior à sua função profissional: a de responsabilidade social.
O Estado pode colaborar abrindo mais vagas e dotando as universidades públicas de melhores condições para que todos, sem exceção, possam, além de profissionais bem-sucedidos, se tornarem profissionais sensíveis à situação do seu próprio País. Mentes brilhantes têm a obrigação de ser menos egoístas. Este é o grande impulso da sonhada transformação social através de um bem insubstituível: a educação irrestrita.
CÉLIA MUSILLI é jornalista e editora de cultura da Folha.





