Quem quase vive
Joana Campana

A população idosa está crescendo em um ritmo vertiginoso, e diante disso imaginar a futura velhice de milhões de jovens brasileiros se torna uma situação um tanto hermética analisando nosso país. Todos almejamos desfrutar da terceira idade de maneira que sejamos realmente reconhecidos como indivíduos ativos, saudáveis e úteis, com possibilidades de cultura e segurança. No entanto, não são a essas condições de vida que nossos idosos estão submetidos.
Presenciamos uma colossal exclusão aos velhos, esses, que dentro de 50 anos serão os verdadeiros protagonistas de nossa história em nível mundial. Segundo o filósofo alemão Frank Schirrmacher, na América Latina o número de pessoas com mais de 80 anos será quatro vezes maior até 2050. Será que estamos preparados para isso?
Obviamente não. O Brasil é hoje um país com extrema carência de políticas públicas que possibilitem uma melhor qualidade de vida aos idosos, e além disso está totalmente mergulhado em um forte convencionalismo que estabelece o culto aos jovens. Envelhecer se tornou sinônimo de improdutividade, pois o padrão estético idealizado na juventude tem um efeito social de intensa repercussão, colocando as pessoas da terceira idade à margem da sociedade, principalmente na questão profissional. São desvalorizados de tal forma, que são privados de sua dignidade, seu posto de trabalho e sua biografia, simplesmente pela idade já alcançada. Sua experiência se torna uma mera lembrança.
Sem contar o desrespeito e o descaso em que vivem, através da falta de segurança e da saúde pública exacerbadamente precária. Uma pessoa com mais de 60 anos sem um plano de saúde está condicionada à lamentável situação de poder morrer à espera de atendimento em hospitais públicos.
Há exatamente um ano foi sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva o Estatuto do Idoso, com o objetivo de estabelecer maiores direitos no que diz respeito à liberdade, à saúde, à educação, à profissionalização, à previdência social e ao transporte. As melhoras ainda não são nítidas, mas compreendemos que é preciso tempo para que o Estatuto seja integrado a toda população, principalmente nas camadas mais carentes. Mas o primordial: é preciso consciência. Respeitar e dar condições dignas de vida a essas pessoas não é uma questão de filantropia, é um dever de todo cidadão. Viver a vida intensamente é necessário a todos, pois como diz Luiz Fernando Veríssimo: ''... quem quase morre ainda está vivo, mas quem quase vive já morreu''!
JOANA CAMPANA é estudante do 2º ano do ensino médio do Instituto Nossa Senhora Auxiliadora em Cambé

Afinal, quem é 'o fenômeno'
Amelio Dall'Agnol

Galvão Bueno, um dos mais ilustres cidadãos de Londrina, costuma referir-se ao Ronaldinho, nosso atleta maior, como o fenômeno. Eu discordo. Ronaldinho pode até ser um fenômeno, mas não é o fenômeno do Brasil.
O fenômeno brasileiro não é gente. Sequer pertence ao reino animal. É um vegetal. Chama-se soja. Desenvolve um fruto amarelo, mas não é ouro. Gera, no entanto, mais dólares para o País do que todo o ouro extraído do seu subsolo. Diferente do nobre metal, a soja não se esconde nas entranhas da terra. Mostra-se altaneira em diferentes tonalidades de verde e quando madura, veste-se desde um tom amarelo palha até um marrom escuro. Está presente em quase todo o território nacional, mas predomina nas Regiões Sul e Centro Oeste.
A soja fez e faz pelo Brasil muito mais do que o penta campeão da bola. Em menos de meio século, ela passou de uma cultura marginal de pequenos produtores do interior gaúcho, para a principal lavoura do País. Originária da China, a soja foi introduzida no Brasil em 1882 e setenta anos depois se converteu num negócio da China para o Brasil. Em 2003, ela respondeu pelo ingresso direto de US$ 8,4 bilhões ou 12% de tudo o que o Brasil exportou.
Mas, mais importante do que os ingressos diretos provenientes das exportações, são os benefícios indiretos derivados da sua extensa cadeia produtiva, que inclui a indústria de máquinas e insumos, antes da porteira e o complexo agroindustrial de transporte, armazenamento e processamento, depois da porteira. O valor econômico e social desses benefícios, representados, principalmente, por empregos no campo e na cidade, é várias vezes maior que o montante auferido pelas exportações. Um, de cada quatro dólares exportados pelo complexo agroindustrial brasileiro provém da soja, que promete exportar ainda mais até o final de 2004: US$ 10,8 bilhões.
A soja ponteia soberana no horizonte do agronegócio nacional, comandando o espetáculo das exportações brasileiras e ocupando o lugar que já foi da cana de açúcar e do café no Brasil dos séculos 17 a 20. Tudo indica que essa posição prevalecerá por muitos e muitos anos ainda, visto ser, o Brasil, a grande promessa de oferta mundial dessa oleaginosa, dadas as suas imensas reservas de terras selvagens, aptas e disponíveis para incorporação imediata ao processo produtivo da soja. O Brasil é único, dentre os grandes produtores mundiais, com capacidade para incrementar a produção em condições de atender o esperado aumento da demanda. A expectativa de plantio para a presente safra é superior a 23 milhões de hectares e a colheita esperada é de cerca de 65 milhões de toneladas; 30% maior que a safra 2003/04, prejudicada em 20%, principalmente pela estiagem que assolou os estados do RS, PR e MS.
AMÉLIO DALL'AGNOL é engenheiro agrônomo da Embrapa Soja em Londrina

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