ESPAÇO ABERTO
Medicina da UEL: um doente terminal
Maria Stela Lessa Paganelli
Li num dos brilhantes textos de Rubem Alves, mestre em escrever bem, sobre os doentes terminais, sem escapatória, condenados a morrer. ''Com a primeira notícia, a revolta: não, não pode ser! E a busca louca de qualquer sinal de esperança: plantas mágicas, curandeiros, rezações. E a luta se trava, feroz. Até que o corpo murchando e definhando aos poucos, vai dizendo sua inapelável verdade. Chega o momento do reconhecimento, do nada a ser feito. Morre a esperança e, com isso, chega a tranquila beleza do irremediável, o tranquilo desespero dos que sabem que é inútil lutar. É o cheiro da morte antes da hora, anunciado no corpo ainda vivo''.
É bem isso o que está acontecendo com o curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL): fadado a desaparecer num curto espaço de tempo. Com o Hospital Universitário (HU), não se preocupe a população: vai se transformar no HM: Hospital Municipal, mais um hospital geral para atender a população, aproveitado pela prefeitura na sua estrutura física. Ou HE, Hospital Estadual, a depender de quem se dispor a gerenciá-lo.
Estou sendo drástica demais? Claro que não. Em vinte anos de UEL (entrei como aluna na faculdade em julho de 1984) nunca vi situação tão triste como a atual. Os professores-fundadores, há 35 anos nesta luta, estão esperando o tempo para aposentadoria e os novos que restaram, os que ainda não pediram demissão nesses anos, não o fizeram para não sentir na consciência o peso de abandonar um doente terminal.
Quem se candidatará a ser médico-professor da UEL e ganhar o salário mensal por 20 horas semanais de 448 reais? Somos contratados como professores, trabalhamos como médicos e ganhamos menos que 2 salários mínimos ao mês. Uma vez me disseram: ser professor no HU é pagar para continuar estudando. Não deixa de ser verdade, pois pagamos para trabalhar ali.
Além do dom, da vontade de ensinar, não basta titulações de mestre e doutor. Deve-se ter o dever de ser bom naquilo que faz: bom cirurgião, bom clínico. São anos de investimentos e de estudos que 448 reais ao mês jamais pagarão. Por mais que o governo do Estado tente reparar o estrago feito durante todos esses anos com o curso de Medicina da UEL, será difícil reparar o que já se perdeu: a dignidade, o entusiasmo, o brilho nos olhos, a esperança dos professores-médicos que ainda restaram.
MARIA STELA LESSA PAGANELLI é médica neuropediatra e professora da Universidade Estadual de Londrina
A espiritualidade de Frei Betto
Walmor Macarini
Frei Betto não é militante do PT. Foi ele quem o afirmou, dias atrás, em Londrina. E também não é um católico dogmático, embora isto ele não tenha dito. Milita nas lutas sociais desde os tempos de adolescente, mas tem um enfoque que o diferencia da quase totalidade dos integrantes do clero, não só o católico mas o de todas as grandes religiões do Ocidente.
Frei Betto é um místico e vê a espiritualidade sobre outro ângulo. Mantém-se no recinto da Igreja Católica porque talvez não deseje ser visto como um dissidente fora dela onde perderia voz e força, porque a Igreja é sua grande tribuna e uma forte credencial mas na verdade ele se situaria bem no círculo esotérico, num mosteiro do Nepal ou num primitivo templo budista, quanto à compreensão de sua integridade espiritual.
Melhor que ele não deixe a Igreja, porque passaria a ser mais um falando de fora para dentro, mas que seja um que fale de dentro para dentro, portanto ouvido pelos seus, que são a grande maioria, no Brasil. Um membro de determinada crença se converterá a estudos espirituais mais aprofundados (entenda-se a busca da espiritulidade plena, sem dúvidas e sem dogmas) se tiver como mestre o guia espiritual de sua própria igreja, e jamais qualquer outro, por mais sábio e iluminado que seja.
A transformação que infalivelmente passará a ocorrer doravante dentro das igrejas não-esotéricas será dessa forma: pela mão dos seus próprios líderes espirituais e muitos novos virão, com novos conhecimentos porque só assim se disporão a ouvir e a buscar. ''A espiritualidade é nosso verdadeiro eu; é esse eu que está sempre nos dizendo o rumo certo da vida. Quando a gente encontra o verdadeiro eu, sabe que tem de mudar''. Palavras de Frei Betto.
A espiritualidade não afasta o homem de sua realidade temporal e de sua responsabilidade com o que o cerca. Assim é, e assim pensa Frei Betto. Quem o conhece sabe que ele se refere ao seu eu maior, o eu transcendente, o eu-Deus em cada indivíduo. A partir desse entendimento será mais fácil ao homem enfrentar os embates, os avanços, os recuos, as grandes decisões do 'drama humano histórico' (palavras dele).
Frei Betto, assim como o padre Leonardo Boff, são mais que clérigos comuns, mas iluminados missionários que, tendo como tribuna a Igreja, vêm para sensibilizar principalmente os que compõem esse mesmo círculo.
Um milhão de palavras não produzirão efeito algum se oriundas do meio externo, mas causarão uma revolução se partidas daquele em quem se crê (no caso o líder da própria Igreja), mesmo que contrariem os dogmas de sua religião e tudo o que esse mesmo mestre tenha dito antes.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





