Sobre pobres e ursos
Luiz Carlos Ferraz Manini

Novamente o final de mais um ano se aproxima, e curiosamente surgem algumas ironias que fazer meu estômago doer. Afinal de contas, será que os pobres somente sentem fome durante o Natal?
Bom, melhor me explicar, para que não haja dúvidas nem sequer ressentimentos. A Ação da Cidadania Contra a Miséria e pela Vida surgiu em 1993, pela ação conjunta de vários organismos sociais, como o PT, a Ordem dos Advogados do Brasil, a CNBB, e foi confiada a Herbert de Souza, o Betinho, a missão de coordenar tal movimento.
A ACCMV lutou, em um primeiro momento, em duas frente: o combate à fome e a luta pela geração de empregos. Quase que obviamente, a geração de empregos foi um fiasco, como todas as tentativas de geração de postos de trabalho neste país. Apesar disto, a campanha para combater o problema da fome foi mais eficaz. A campanha ''Natal sem Fome'' surge neste contexto, para promover uma mobilização em favor dos menos agraciados e tentar levar um pouco de esperança ao menos durante o Natal.
Louvável tal atuação, mas o que realmente incomoda é o frenesi provocado nos meses finais do ano com esta campanha. Vamos ajudar o Natal de quem não tem nada para comer. Ótimo, e o resto do ano? Como estas pessoas se arrumam? Entram novamente na fila do Bolsa Família e esperam para que seu dinheiro não seja desviado?
Será que os governantes pensam que os mais pobres deste país são como ursos? Comem durante o verão, que é coincidente com o Natal aqui nos trópicos, e hibernam o resto do ano? Acumulam suas energias agora para não terem de sair de suas tocas depois? Hum, interessante. Desta forma, conseguem esconder o problema da miséria que assola um país de dimensões gigantescas como o nosso. Fazem o pobre comer no verão e podem escondê-lo durante o resto do ano. Pelo menos os estrangeiros não os vêem e vão pensar que o Brasil progride.
Vamos combinar: a campanha tem seu mérito, obviamente. Mas o que devemos ter em mente é que não apenas no final do ano que temos de nos lembrar que há pessoas passando fome, e então nos mobilizarmos para ajudá-las. O êxtase causado pela campanha neste momento deve acompanhar a consciência do povo ao longo dos outros 364 dias do ano, para que não tenhamos que nos confrontar com situações que nos humilham. Ficar pensando que o Brasil é o país do futuro não ajuda em nada. O Brasil é a nação do presente, e é hoje que as pessoas passam fome, se matam por um espaço de sobrevivência, se humilham para continuar existindo, e nós postergamos as soluções. Pensem.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina

Sequestro relâmpago
Patrícia Marcondes de Barros

Segundo a lenda, consta que Diógenes, filósofo grego, descrente da honestidade do ser humano, andava, durante o dia, com uma lanterna acesa à procura de um homem honesto. Hoje, inconformado com a falta de segurança a que estamos submetidos, Diógenes, advogado tributarista paulista, criou, com base na tecnologia moderna (informática), um programa para computador para identificar homens desonestos.
A diferença de propósito entre os dois está exatamente no seguinte: enquanto Diógenes, o grego, utilizando-se de uma lanterna, procurava fazer uma crítica filosófica quanto à falta de honestidade que é possuidora a raça humana, notadamente nas camadas das classes dominantes, o outro, Diógenes, o paulista, procura, através de um programa de computador, oferecer meios para identificação e localização de homens desonestos, praticantes de ''sequestros relâmpagos'', criando, assim, reais condições para a polícia combater esse tipo de crime que tanto vem assustando nossa sociedade.
Conforme Diógenes, é muito difícil à polícia atuar preventiva ou repreensivamente nesta modalidade criminosa, já que a mesma não possui uma ''bola de cristal'' para prever quando e onde um cidadão se tornará ou já está vítima de um sequestro relâmpago. Diante desta dura realidade, o meio adequado no combate a esse tipo de crime é o proposto por Diógenes, nosso contemporâneo, e não Diógenes, o filósofo grego, sob pena de estarmos filosofando diante de um problema tão grave.
Caso esse programa seja adotado pelos bancos, será possível ao cidadão criar uma ''senha especial'' para ser dada ao marginal, caso tenha se tornado uma vítima de um sequestro relâmpago''. O marginal, ao digitar a referida senha para sacar o dinheiro da conta de sua vítima, estará acionando um alarme em uma central de polícia, imperceptível no local do caixa eletrônico que estiver sendo utilizado, que informará, além do endereço do mencionada caixa, o nome da vítima e seus dados pessoais (estatura, cor, peso, precauções médicas, etc), assim como detalhes sobre seu carro (marca, modelo, chapa, cor). Com base nessas indispensáveis informações, que são fornecidas em tempo real, a polícia poderá intervir com maior eficiência no socorro à vítima e na prisão do marginal.
Concluindo filosoficamente este artigo, constata-se que, desde dos tempos de antes de Cristo até os nossos dias, o homem ''irracional'' vem sendo o grande animal predador e depredador do homem racional, provocando um grande desequilíbrio em nossa sociedade.
PATRÍCIA MARCONDES DE BARROS é professora universitária em Londrina, escritora, mestre e doutoranda em História Social

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