Parem que eu quero descer
René Ruschel

Passados quase dois anos seria bom para o país, para o PT e para os inquilinos do Palácio do Planalto se algum companheiro de alto coturno, mesmo que a portas fechadas, alertasse o presidente Lula para os riscos políticos que seu governo vem incorrendo. Sim, alguém capaz de ser ouvido pela cúpula e que com todas as letras pudesse afirmar que ''assim eu não fico mais''. Ou seja, parem que eu quero descer. A rigor, o alerta já foi dado. A senadora Heloisa Helena, os deputados federais Luciana Genro, Babá & Cia foram os primeiros a se rebelarem. Como eram radicais, jovens, não mereciam ser levados a sério. Como punição, acabaram expulsos do time. A seguir outros parlamentares ameaçaram não votar alguns projetos do Executivo, como o da reforma da Previdência, mas tudo foi contornado em nome da governabilidade. Agora um seleto grupo de petistas históricos - Frei Betto, Ricardo Kotscho, entre outros - pega o boné e desembarca da nau. O xis da questão não está necessariamente nos que saem, mas nos que entram para compor o novo quadro e serem coadjuvantes de um governo eleito pela esperança de mais de 50 milhões de brasileiros.
Caso o PT fizesse uma análise etimológica do que o povão quis dizer quando votou na ''esperança'' - não seria preciso convocar nenhum filólogo para entender a mensagem, bastaria qualquer dirigente se sentar à mesa do botequim da esquina e conversar com a tigrada - saberia que pedia apenas mudanças. Mudança de postura, de hábitos arraigados há séculos na política como o clientelismo, afinal estava cansado de levar chibatadas no lombo, de pagar a conta pelos desmandos, de morrer na fila do SUS, de implorar trabalho em troca de um salário miserável, de andar à espreita pelas ruas ou vielas ziguezagueando das balas perdidas, enfim, como diz o refrão de um velho samba-enredo ''sonhar não custa nada....ou quase nada''.
Infelizmente o governo, com o PT a reboque, repete os mesmos hábitos de antanho. Ressuscita a prática do ''é dando que se recebe'' e corre o risco de jogar no lixo duas décadas de história como oposição. Um sintoma emblemático foi o apoio de Paulo Maluf à reeleição da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, no segundo turno das eleições e agora quando o PP, partido de Maluf, negocia um ministério no Governo Lula. De olho nas eleições de 2006, o governo parece ter perdido a noção de limite entre o possível e o imaginável. A figura do presidente Lula, no aspecto ético e moral, permanece intocável e seu carisma ainda é o maior trunfo numa possível reeleição. Mas isso é uma condição necessária, porém não suficiente por si só para garantir a continuidade do poder. Os resultados das eleições municipais são um claro sintoma que alguma coisa não anda bem no Planalto Central. Pena que mais uma vez o PT não entendeu o recado. Mas alguém precisa dizer ao rei que ele está nu.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

Professores universitários: salários calamitosos
Nelson Martins Garcia

Qualquer pessoa, mesmo sem especialidade em economia pode concluir que os salários dos servidores das universidades estaduais estão extremamente defasados em relação ao custo de vida, quando comparado a qualquer índice oficial de inflação. De fato estamos com os salários literalmente congelados desde 1º de março de 1997, data da implantação da Carreira do Pessoal Docente das instituições de Ensino Superior do Estado do Paraná.
Nesse longo período de mais de 90 meses obtivemos apenas um reajuste linear para os professores e técnicos de nível superior, de 13,55% sobre os salários de fevereiro de 2002. Estudos indicam que nossas perdas nesse período totalizam um percentual de 73,59% em relação ao salário de agosto de 2004, se tomado a variação do INPC/IBGE desde março de 1997. Descontando multiplicativamente o percentual de 13,55% conquistados na longa greve de 2001/02, resta um saldo de recomposição salarial de 52,87% sobre o salário de agosto/2004. Essa defasagem acumulou neste período, uma reposição de 22,9 salários de agosto/2004. É o lado perverso do plano real.
Os professores universitários, principalmente das universidades públicas brasileiras, são os profissionais que mais perderam direitos trabalhistas nessa última década, e paradoxalmente foi mais acentuada neste governo petista. O sofrido professor perdeu entre outros, o abono pecuniário, as férias de 45 dias anuais, que era garantida por lei no Paraná, a aposentadoria por tempo de serviço ao completar 30 anos de trabalho e a licença especial que era garantida desde 1970. Além disso, passou-se a exigir dele a idade mínima de 60 anos para se aposentar. Isso sem falar no constante achatamento salarial, que inviabilizará a dedicação exclusiva ao ensino e à pesquisa. É espantoso como isso vem ocorrendo sem nenhuma resistência contundente, tanto em nível estadual, quanto federal. O que será que temos mais para ser extirpado depois da grande campanha difamatória promovida pelo governo federal e do ''esquecimento'' por parte do governo estadual?
O Governo Requião não está preocupado com os salários dos professores universitários. Em 1991, no seu primeiro governo, já passamos por situação semelhante e infelizmente esquecemos todos os males causados. O poder de pressão da categoria docente parece que chegou a zero, e, a Reitoria, por limitações legal e orçamentária, pouco pode fazer em relação aos salários. Qual será nosso posicionamento frente a esta situação?
A única solução que nos resta, como um ato de desespero e humanitário, é reivindicar que seja liberada a licença sem vencimentos para fins particulares, com substituição do professor. Como consequência, muitos professores poderão trabalhar em outras instituições, particulares ou públicas, ganhando melhores salários, durante algum tempo. Neste prazo, o governo já terá terminado o mandato, e quem sabe no futuro, outro governante prestigiará melhor nossa categoria profissional.
NELSON MARTINS GARCIA é doutor em Ciência em Matemática e professor de Matemática Universidade Estadual de Maringá

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