A miragem do crescimento sustentado
O recente desempenho de alguns indicadores da economia brasileira trouxeram uma onda de otimismo aos analistas que, à espera do ''espetáculo do crescimento'', acompanham a conjuntura econômica. É evidente que esses índices que demonstram o atual nível de atividade, numa economia que teve crescimento de apenas 2% ao ano nas últimas duas décadas, podem saltar aos olhos como uma ''miragem''. A atual equipe econômica do governo federal tem apresentado somente a forte inclinação de configurar um bom desempenho dos índices agregados da economia a partir de políticas ortodoxas, incapazes de manter a economia como um verdadeiro espetáculo.
A rígida política monetária do Banco Central que adota os aumentos gradativos da taxa Selic, aliada à equipe econômica do Ministério da Fazenda que eleva o superávit primário para equilibrar o impacto dos juros altos, só servirão para manter a economia brasileira numa aparente ''bolha'' de crescimento. Para a economia se fortalecer, o crescimento sustentado não deve ser delimitado somente pela política monetária e fiscal. Para afirmar o crescimento no país, existe a necessidade urgente de combater os entraves internos que a economia vem sinalizando.
O crescimento auto-sustentado da economia continuará como uma ''miragem'' se, no médio prazo, persistir o baixo nível de investimentos em infra-estrutura básica; se a dívida pública em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) continuar elevada; e se a carga tributária permanecer se expandindo. Paralelamente, o ''espetáculo do crescimento'' depende de uma redução drástica das despesas correntes do governo e um aumento significativo do investimento público nas áreas de saúde, educação e geração de empregos.
Na atual conjuntura da economia brasileira, a ''miragem'' também se revela quando as projeções do governo para o PIB de 2004 são elaboradas a partir de uma base comparativa deprimida. Para este ano, estima-se um crescimento de 4,2% comparando com o ano passado, quando o PIB brasileiro cresceu apenas 0,2%. Neste aspecto, o cálculo da variação do PIB torna-se superestimado e bastante deficiente para indicar o crescimento real. Assim, o crescimento sustentado só estará longe de ser como uma ''miragem'' quando o governo minimizar os entraves internos da economia e deixar de aplicar a política monetária radical que acaba pressionando de forma ameaçadora a trajetória do ciclo econômico de recuperação, através da elevação exorbitante da taxa de juros para atingir as metas inflacionárias.
RONALD JESUS DA CONCEIÇÃO é graduando em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em Curitiba

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