Importância da cidadania
Lourenço Zancanaro

Nunca a palavra cidadania foi tão debatida como nos últimos tempos. É bom que seja assim. Quem sabe a discussão desperte uma consciência e um agir cidadão por parte de todos. Este agir pode partir de um simples fato cotidiano, ''respeitar as leis'', pois numa democracia este ato visa o bem comum de toda a sociedade. O fundamento da ação cidadã está no respeito ao que determina a lei e quando esta não é mais adequada, é necessário mudá-la e aperfeiçoá-la, de tal modo que atenda aos interesses do bem comum.
De fato, esta é a teoria, aquilo que deve ser. Quando falamos de nossas Instituições Sociais e Políticas, pressupomos que as ações daqueles que nos representam realmente tenham como objetivo os interesses da maioria. Esse é o sentido de um governo representativo. Aqueles que elegemos são ''representantes''. Representam porque foram legitimados pelo voto, pois teoricamente jamais poderiam falar em nome de si mesmos: ''Eu fiz esta obra, construí esta escola'', etc. O que foi feito, só pôde ser realizado porque a sociedade pagou os impostos embutidos no que consumiu. Ter feito isto ou aquilo, nada mais foi do que um dever. Apenas gastou bem os recursos disponíveis de que todos contribuíram proporcionalmente segundo seus ganhos e patrimônio.
Aqui entra o cerne da questão e o grande desafio de uma educação cidadã. Enquanto muitos ''verdadeiros educadores'' estão preocupados em passar valores, modificando condutas, muitos dos nossos governantes e candidatos insistem em ''terra arrasada'' com a cidadania, alimentando a consciência das pessoas com discursos e ações, antiéticas, imorais, clientelistas, populistas, privatistas, individualistas e anti-sociais. Estas ações depõem contra tudo o que se possa entender sobre cidadania e que pode ser resumido no descumprimento da lei.
Não acredito que nossos educadores (professores) sejam ruins. O que é ruim é uma parte da sociedade que alimenta valores anti-sociais, administra o bem público como se fosse uma extensão da sua própria casa. Isto é um péssimo exemplo. Infelizmente nossa sociedade está constantemente sendo alimentada por esta desgraça, a cultura da corrupção, do favorecimento e do jeitinho.
Muitos governantes só se preocupam em conchavos. Esquecem a grandiosidade e a beleza da política, e insistem em alimentá-la com o combustível do ''ódio e da violência''. É uma pena que a prática seja assim. Esquecem que aquilo que plantam hoje certamente vão colher amanhã. É uma pena que as ideais e as práticas de cidadania que nossos professores plantaram e plantam durante anos de trabalho, sejam destruídos ano após ano pelo agir anti-cidadão de muitos dos nossos representantes. Como? Descumprindo o que é mais sagrado em uma sociedade: a lei.
LOURENÇO ZANCANARO é professor no departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina

Quanto custa uma universidade?
Jairo Queiroz Pacheco

No debate da sucessão municipal tem sido colocada a proposta de criação de uma universidade municipal gratuita, que seria exclusiva para estudantes que residissem há mais de um ano em Londrina e que fossem filhos de famílias carentes. Apesar de parecer uma proposta simpática, ela é inviável, tem problemas legais para ser implementada e custaria ao município muito além do que ele tem condições de assumir.
A Constituição brasileira define como obrigação do município fornecer o ensino das quatro primeiras séries do nível fundamental, cabendo aos estados as demais séries do fundamental e o ensino médio, enquanto que à União caberia o ensino superior. Nada impede que um município que esteja cumprindo suas obrigações invista também no ensino superior, caso esteja sobrando recursos em seu orçamento; mas não parece ser este o caso de Londrina.
Uma universidade municipal exclusivamente para londrinenses é flagrantemente ilegal, porque a Constituição Federal prevê que a educação pública, em seus diversos níveis, deve se estender a todos os brasileiros. Por outro lado, falar em aproveitar as escolas municipais no período noturno para que nelas funcione a suposta universidade municipal demonstra o desconhecimento de que todo o equipamento construído para crianças de 7 a 11 anos não é adequado à utilização por adultos. Além disto, uma universidade requer bibliotecas gerais e especializadas, laboratórios, salas para inúmeras atividades de pesquisa, de extensão e de estágios.
A título de comparação, é importante saber por exemplo que o orçamento anual da Universidade Estadual de Londrina (UEL) é de R$ 185 milhões. Isto, somente para o pagamento dos salários de professores e funcionários e para as despesas com manutenção. Não estão aí incluídas as verbas para a compra de aparelhos, equipamentos, livros, e a realização de obras. Vale lembrar que a infra-estrutura da UEL foi sendo construída ao longo de 33 anos; período no qual igualmente foi sendo investido na capacitação do seu quadro de pessoal. O orçamento total do município - pessoal, manutenção e obras, de todas as secretarias - está em torno de R$ 550 milhões.
Esta comparação é importante porque estamos partindo do pressuposto que se pretenda ofertar um ensino superior de qualidade. O improviso de instituir uma fundação de direito privado que tivesse participação do município e que criasse apenas cursos noturnos de menor custo, implica em falarmos de algo que não se trata de uma universidade, além do fato de parecer-se muito mais com as atividades empresariais do candidato a vice-prefeito da chapa autora da proposta. Neste contexto, falar na criação de uma universidade municipal não passa de oportunismo eleitoral ou, o que é pior, de articulação de mais um mecanismo de desvio da Prefeitura do cumprimento de seu caráter público.
JAIRO QUEIROZ PACHECO é pró-reitor de graduação da Universidade Estadual de Londrina

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