ESPAÇO ABERTO
Londrina, terra de missão
Romão Antonio Martini Martins
A última eleição e o desfecho para o segundo turno em Londrina deve, no mínimo, levar a uma profunda reflexão. Como pode numa sociedade que se declara cristã, seja ela católica ou evangélica, alguém com fortes acusações de desvio de dinheiro público, respondendo a cerca de 40 processos por roubo e formação de quadrilha, o pivô de um escândalo nacional, encontrar respaldo no pleito eleitoral? Da parte de eleito e de eleitores, é a pura negação da ética cristã e dos valores evangélicos.
Percebe-se que igrejas lotadas e audiência maciça a programas religiosos não é sinal de conversão. O mínimo que se espera de alguém convertido, ou convertendo-se, é que seja decente no seu agir, ame a justiça e não perca a capacidade de se indignar com o erro e com tudo o que afronta a moral e os bons princípios. Consequência de uma fé superficial? Pode ser! Poucos transformam fé em vida! Não raro, a religião é mais um meio de busca de comodidade e bem-estar pessoal do que um encontro com o Deus vivo que requer compromisso e mudança de atitudes.
No Brasil atual nunca houve tanta gente formada e informada com graduação superior. Como justificar tamanha falta de bom-senso? Ignorância? Paixão cega? Conveniência? Tais eleitores, vítimas de falácias, sequer conseguem dar uma razão plausível, coerente, lógica para justificar o seu voto. São Paulo e Alagoas, com Maluf e Collor, não se deixaram enganar. Senão, como ensinar às crianças que o crime não compensa? O dúbio não merece crédito até que prove sua inocência, ainda mais quando não aceita tocar no assunto com a balela de que só quer discutir propostas e fica se fazendo de vítima.
Não é necessária filiação política e nem defesa de um único candidato. É preciso de gente séria que não permita que a dignidade, o bem e a decência fiquem no prejuízo. Caso contrário, toda a sociedade perderá. Ninguém terá o direito de reclamar da corrupção e da malandragem. Quem poderá condenar o juiz Nicolau? O Brasil precisa de bons políticos, respaldados por um passado íntegro, fidedigno, honrado! Chega de populismo barato e de oportunismo para o qual não se poupa nem o nome de Deus! O nível dos eleitos revela o nível dos eleitores. ''Diga-me em quem tu votas e te direi quem tu és!''.
ROMÃO ANTONIO MARTINI MARTINS é pároco da Paróquia Nossa Senhora da Paz em Londrina
Deitados em berço esplêndido, eternamente?
Renato Forin Junior
Mais uma eleição e mais uma vez exércitos de filhos da pátria amada, mãe gentil, venderam suas ideologias. Viva o povo vendido e sem consciência! São eles os soberanos da democracia. Os mesmos que carregam na ponta da língua o jargão ''eu odeio política'', mostram todo o seu fervor democrático ao vestir a camisa daqueles que compraram seus votos. São eles que, no final do dia, comemoram catarticamente a vitória de seus financiadores.
As mesmas bocas que gritam vitória clamam por mais saúde, emprego e moradia nos anos subsequentes. E as mesmas camisas dos candidatos vestem, mais tarde, os esquálidos corpos que aguardam nas filas dos hospitais. Pobre povo inconsequente, marginais do capitalismo, acreditam no futuro da nação e são tão vulneráveis quanto a instabilidade de suas ideologias. Mal sabem que a continuidade dos problemas sociais não é só resultado da passividade política, mas, principalmente, da militância comprada, insana e cega.
Votar tornou-se brincadeira. A gente vai até a seção, digita os números do candidato que der na telha. Depois é só apertar o botãozinho verde e mais tarde comemorar a vitória dos catadores de papel, dos alcoólatras, dos patrões dos cabos eleitorais, dos ladrões do dinheiro público, afinal de contas, ''ele rouba mas faz'', e ''quem não rouba?''. E se, usando um exemplo de Gilberto Dimenstein, sua empregada roubasse seu dinheiro mas fizesse todo o serviço direitinho, seria lícito dar uma segunda oportunidade para ela?
O analfabeto político gosta de ser assim. Para ele ''política não se discute''. O povo espera ficar ''deitado eternamente em berço esplêndido'', empurrando a vida com a barriga vazia, e ''de amor e de esperança a terra desce''.
E assim vai sendo escrito mais um episódio da política brasileira. Nele, figuram cidadãos que aceitam tornar-se animais de currais eleitorais, pessoas indiferentes ao ato cívico, canalhas do passado, coronéis do presente, radialistas, apresentadores, catadores de papel e até (quem diria?) gente honesta e com sede de mudança. Afinal, estamos na democracia, e viva a ditadura do povo!
RENATO FORIN JUNIOR é de Ibiporã e estudante de Jornalismo em Londrina





