ESPAÇO ABERTO
A sociedade dos horrores
Julio César Campano Floriano
''Depois da exploração do homem pelo homem em nome do capital, o neoliberalismo e seu braço profissional, que é a globalização, criaram, mantêm e ampliam, em nome da sacralidade do mercado, a exclusão de grande parte do gênero humano. O próximo passo será a eliminação? Caminhamos para um holocausto universal, quando a economia modernizada terá repugnância em custear a sobrevivência de 4/5 da população mundial? Depois de explorados e excluídos, bilhões de seres humanos, considerados supérfluos, devem ser exterminados? O raciocínio é bem mais que uma hipótese. É um desdobramento lógico do horror econômico (...). Horror - este sim - globalizado pelos governos que buscam resultados contábeis e condenam a ação social como jurássica.''
São com estas palavras que Carlos Heitor Cony anuncia o ''Horror Econômico'' da francesa Viviane Forrester, publicado originalmente em 1996. Em um ensaio contundente, sua obra toma argumentos, ainda que indiretamente, em todo o desenvolvimento econômico observado na história das sociedades. História essa que, com maior ou menor intensidade, vem metamorfoseando as formas de eliminação dos ''não economicamente-arianos''. Malgrado os períodos onde se ensaiou uma contenção dos processos de eliminação de uma população supérflua, incapaz de consumir, mas principalmente, uma população que gera custos, o saldo em favor dos algozes da humanidade ainda é positivo.
Condenados a mais absoluta miséria frente ao progressivo aumento das riquezas e sua espetacular concentração, 4/5 da população aguardam novas formas de eliminação. Espalham-se pelo mundo, pelas ruas, pelas praças e pelos becos, incomodando aqueles que se encontram a um ou dois degraus acima em uma escala social de morte. Uma parte da população mundial já não luta mais pela sobrevivência. A outra, luta para não ser rebaixada ao último patamar. E uma pequena parte, se defende do restante.
O que se segue ao horror econômico e ao horror político que imobiliza qualquer forma de ação nesta realidade? Segue o horror social, que é reproduzido em diferentes escalas e personalizado através de espancamentos de moradores de rua em praças públicas como é noticiado em jornais. Moradores de rua sem emprego e sem nenhuma assistência social eficaz. A uma pequena parte da sociedade, os economicamente arianos, resta o consumo da violência, o consumo de formas de contenção de um ameaçador exército de humanos sem-pátria, sem-bandeiras e sem-direito à vida. Um exército de desempregados cuja solução demanda custos. Por isso, na lógica da sociedade moderna, onde a vida não tem valor, a morte a pauladas cumpre funções econômicas, políticas e sociais a baixos preços.
JÚLIO CÉESAR CAMPANO FLORIANO é sociólogo em Londrina e pós-graduando em Economia do Trabalho e Sindicalismo pelo Instituto de Economia da Unicamp/Campinas
Um novo nazismo?
Luiz Carlos Ferraz Manini
Examinemos a situação do mundo em que vivemos: somos alvejados todos os dias por uma cultura dita global, massificada, que nos transforma cada vez mais em meros consumidores de produtos e coisas sem sentido. Estamos em uma época cada vez maior de criação de necessidades, que são colocadas como nossas, mas que só servem para alimentar a indústria cultural.
A moeda que mais cresce no mundo é transnacional, ou seja, não possui um país específico de origem, cresce e se dissemina quase como um vírus, tomando a todos os lugares na Europa. Olhemos para o exemplo da Inglaterra e ficaremos admirados de como este país ainda consegue manter sua moeda, em contraposição à vaga chamada euro.
Neste contexto, fica difícil imaginar o renascimento do nacionalismo em países cuja cultura e consciência enquanto nação já estão consolidadas há algum tempo. Falo especificamente do Brasil, onde podemos perceber um movimento contra a maré. Como assim? Qualquer espectador já viu em seu televisor as propagandas em que se mostra um país ideal, dizendo ''o melhor do Brasil é o brasileiro'', desconsiderando todos os demais formadores e integrantes deste arremedo de nação soberana. Ao mesmo tempo, vemos uma revolta incontida contra os menos favorecidos, no caso os moradores de rua mortos por facínoras que os enxergam enquanto máculas da nossa imagem.
Pretendo somente mostrar que o que percebo é que estamos voltando a praticar um tipo de política particular da Alemanha do entre-guerras: o nazismo. Criamos uma auto-imagem que diz que somos os melhores, e os que não se encaixam nesta figuração de nacionalismo vamos eliminando (os judeus devem entender bem o que estou dizendo, já que não se encaixavam no projeto nacionalista ariano).
Que pena para o nosso país que, além de tudo isso, tem como seu presidente um senhor que, por ter sido dispensado do serviço militar quando jovem, acha que deveríamos aumentar nosso contingente de soldados, além dos investimentos que temos feito em armamentos. Peguem um livrinho de história do segundo grau, e vejam se estou tão errado assim...
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina





