O professor é descartável?
Luiz Gonzaga de Melo

As afirmações da psicóloga Rosely Sayão publicadas na Folha de Londrina, na edição de 11 de agosto, de que ''a escola forma o cidadão e a família forma a pessoa'' e ''em tempo de internet, computador, televisão e crianças mais espertas é inadmissível o professor dar aula. O aluno deveria organizar o conhecimento e pesquisar em livros e internet que são muito melhores que os professores'' são controversas.
Se levarmos ao pé da letra a primeira afirmativa, estaremos fracionando o indivíduo, o que permite interpretar que é possível um cidadão não ser pessoa e uma pessoa não ser cidadão. Ambas formações carecem de educação, e embora a educação familiar e a escolar tenham algumas funções distintas uma completa a outra. Um indivíduo gozará maior dignidade - próprio da pessoa - e direitos civis e políticos, e cumprirá seus deveres na sociedade com maior presteza - próprio do cidadão - quanto mais as duas formas de educação interagirem e se complementarem.
Quanto à segunda afirmativa da psicóloga Sayão a controvérsia se fundamenta nos trabalhos do psicólogo bielo-russo Lev Semyonovitch Vygotsky, referendado por muitos estudiosos contemporâneos, em que fica claro onde e como se produz conhecimentos, merecendo destaque a importância das intervenções e mediações do professor naquilo que Vygostky chamou de Zona de Desenvolvimento Proximal.
As pessoas aprendem novos conceitos quando socializam ou estabelecem uma relação deste ''novo'' com um conceito que já tenha elaborado, de seu domínio. É verdade que é o aluno que constrói seu próprio conhecimento, mas também é verdade que a ajuda do professor nessa tarefa de construção, intermediando a relação entre aluno e saber, é essencial e imprescindível, pois é a partir dela que o aluno progride na direção das finalidades educativas.
Se dissermos que professores não são importantes deveremos dizer que escolas também não são, e pelo visto não será neste século que a humanidade estará habilitada a formar pessoas e cidadãos sem a existência de escolas.
Concordo, entretanto, que o mundo mudou e que a escola não acompanhou como deveria esta mudança. É preciso resgatar o real valor do professor em todos os sentidos, e intensificar e melhorar as atividades de capacitação docente, começando por ampliar as possibilidades de entendimento do novo currículo exigido neste início de século XXI.
LUIZ GONZAGA DE MELO é professor em Ibaiti (PR)

Dificuldade de aprendizagem escolar
Eliane Nápoli

Constata-se em qualquer instituição escolar, seja ela particular ou pública, os casos de alunos com dificuldade de aprendizagem. Isso não é problema de pobre ou rico, mas trata-se de uma realidade que pode ocorrer com muitas crianças. As dificuldades podem ser externas chamadas de problemas de aprendizagem reativos e têm diversas causas.
Inadequação da educação familiar x educação escolar: ocorre quando a família é extremamente liberal e não impõe limites para educar. Sendo assim, a criança se depara na escola com regras sociais e limites que são ''fundamentais para o convívio em sociedade'' e sente dificuldade de se adaptar ao meio social em que está inserida.
Falta de participação dos pais na vida escolar: a escola propõe que o aluno faça tarefas e tenha uma participação integral. Porém, a criança não recebe apoio e nem incentivo dos pais que quase nunca aparecem nas reuniões, exposições e eventos escolares.
Tamanho inadequado da escola: em escolas de grande porte nem sempre é possível dar aos seus alunos um atendimento individualizado. Neste caso, o aluno pode se sentir abandonado, perdido e sem referências não reconhecendo o espaço escolar como ''seu''.
As dificuldades de aprendizagem também podem ser de ordem interna, chamadas de inibição ou sintoma decorrentes da estrutura individual da criança, de sua personalidade ou de fatores internos da própria estrutura familiar. Estes fatores são geralmente de ordem emocional.
A expressão ''olho clínico'', que podemos emprestar da medicina, deve estar presente no processo de avaliação da escola para observar cada aluno em seu desenvolvimento. Em todas as etapas a observação é fundamental para precisar bem as questões das dificuldades e, se necessário, encaminhar para uma ajuda adequada.
Cabe à escola acompanhar cada um dos seus alunos, observando o desenvolvimento cognitivo, físico, social e afetivo. Se desde a educação infantil a escola levar a sério uma avaliação integral e individualizada de cada aluno, haverá condições de precocemente diagnosticar as dificuldades e, consequentemente, a intervenção adequada ajudará e servirá de prevenção a futuros problemas.
ELIANE NÁPOLI é pedagoga e diretora de escola em Londrina

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