Os valores pedagógicos do MST
Paulo Henrique Martinez

Nestas semanas o MST recebeu críticas da imprensa, de políticos e da Contag ao projeto educacional que desenvolve desde a década de 1980. O eixo das críticas foi o distanciamento do Estado e os projetos políticos embutidos na educação promovida em acampamentos e assentamentos. Qual o teor das críticas ao projeto educacional do MST?
A primeira diz que o MST pretende substituir o Estado na educação de seus militantes, mantendo uma rede paralela de ensino. Aqui está em questão o fato do MST formar os seus próprios intelectuais orgânicos. Os organizadores da cultura segundo a visão crítica do mundo em que vivem, trabalham e lutam, a autonomia e a liberdade política guiada pelo espírito associativo, até o momento, profissional, no futuro, talvez, social. Ao disputar a organização e a direção da sociedade o MST educa para a revolução.
O projeto educacional do MST é liberdade e necessidade. Liberdade da opressão social que exclui e marginaliza segmentos da população brasileira, no campo e na cidade. Necessidade de superar um quadro social que reproduz a exclusão social, a marginalização e o preconceito para com os ''condenados da terra'', índios, negros, caboclos e ribeirinhos.
A segunda crítica esguela que o MST quer tomar o poder, conquistar o Estado. A questão aqui é a dos limites da democracia no Brasil. O povo deve ser tutelado? A educação liberal esmera que não, por isso advoga a universalização do ensino, em todos os níveis, para que o cidadão tome decisões racionalmente orientadas.
Caberia indagar, o povo pode ser tutelado? Este é incapaz de controlar suas ações e seus pensamentos? A autonomia crítica do indivíduo não estaria assegurada pela educação liberal? Os críticos do projeto educacional do MST revelam intolerância com a proposição da diferença e apego à imposição do ''ideal para o povo'', que jorra do Estado.
A expressão ''conquista do Estado'' deve ser entendida como ''a criação de um novo Estado, gerado pela experiência associativa'' e instituições de novo tipo, diz Gramsci. O MST acena com esse futuro? Não há fórmulas prontas, mas um processo político em desenvolvimento. Quem triunfará nessa concorrência política? As críticas são pânico.
O futuro do MST e de seus aliados históricos, o PT e a CUT, poderá revelar os limites máximos consentidos e, logo, por dilatar, da democracia no Brasil. Merece atenção.
PAULO HENRIQUE MARTINEZ é professor no Departamento de História da Unesp em Assis (SP)

Interesses internacionais
Marcos Menezes Prochet

Os que acreditam que nada têm a ver com as sistemáticas invasões de terras no Brasil pelo simples motivo de não serem proprietários rurais estão completamente enganados. O que está em jogo não é apenas a questão fundiária como procuram transparecer, mas sim toda a estrutura político-social do país.
Que os líderes do MST e outros movimentos rurais não desejam a reforma agrária, parece estar exaustivamente demonstrando nos noticiários que informam das doações de mais de 30 milhões hectares aos sem-terra, com índice de produção insignificante, contra sucessivas quebras de recordes de safras obtidas pelo agronegócio. Este segmento além de gerar quase 40% dos empregos brasileiros, um terço do PIB nacional, 42% da balança comercial e um superávit de US$ 30 bilhões ainda produz os alimentos que compõem as cestas básicas distribuídas aos que lhe invadem.
Nefastos interesses internacionais sustentam financeiramente as lutas no campo, pois as grandes potências econômicas apavoram-se com a possibilidade de explorarmos racionalmente a última grande fronteira agrícola mundial o cerrado brasileiro e conquistarmos o emergente mercado asiático. Como exemplo, cito a ONG Terra de Direitos, defensora jurídica do MST, cujo principal líder e advogado Darci Frigo, oriundo da CPT, em depoimento à CPI da Terra da Assembléia Legislativa do Paraná declarou, para espanto dos deputados e da platéia, na qual me incluía, ser sustentada unicamente pela Fundação Ford do Brasil. A inusitada situação, uma multinacional patrocinando uma entidade que tem ojeriza por multinacionais, é exemplar. Um quer controlar o desenvolvimento nacional e o outro quer o poder, não importando os meios.
Como o Brasil é maior que tudo isso, a solução depende apenas de vontade política. Para acordarmos o gigante adormecido, devemos deixar trabalhar em paz quem já está produzindo muito bem, abandonarmos a dita reforma agrária e rumarmos ao cerrado brasileiro onde implantaremos a ''forma'' agrária, também conhecida pelo nome de ''colonização'' agrícola. É óbvio que a administração dessa empreitada nunca poderá passar pelas mãos do MST, mas sim de cooperativas agrícolas que com muita competência vêm gerenciando o agronegócio. Caso isso ocorra, caberá ao MST assumir sua face política ou cair na inutilidade.
MARCOS MENEZES PROCHET é vice-presidente da União Democrática Ruralista (UDR) nacional e presidente da UDR de Paranavaí

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