Conflito em Israel: acerca da cerca
Nilton Aizenman

Mesmo tendo apenas cunho simbólico, a recente resolução da ONU que exige derrubada da cerca anti-terrorismo na Cisjordânia precisa ser contestada por todos os realmente interessados numa solução justa para o conflito árabe-israelense.
Primeiramente, a ONU deveria ter reconhecido que a decisão de construir a cerca foi tomada por Israel após quatro anos de incessante terrorismo dos homens-bomba palestinos. Ao longo deste período, a Autoridade Palestina nada fez para evitar tais ataques ou desmantelar a infra-estrutura terrorista.
Aproximadamente mil civis israelenses foram mortos e outros milhares seriamente feridos nestes atentados. Israel é um país minúsculo, com apenas 6 milhões de habitantes. Mil mortos lá têm o mesmo impacto que 30 mil aqui no Brasil. Pergunto: como reagiria a população e o governo brasileiros frente a tamanho massacre?
Onde a barreira anti-terror já foi erguida, não apenas as infiltrações terroristas deixaram de acontecer, mas houve ainda drástica redução das ações militares israelenses e dos tão criticados postos de controle. Caso a barreira seja destruída, certamente o ciclo de ações terroristas e operações do exército de Israel recrudescerá. Será esta a melhor opção para as duas populações?
Outro ponto que precisa ser ressaltado é que durante toda a construção da cerca as queixas da população local vêm sendo seriamente levadas em consideração pelas autoridades israelenses. Julgando petições movidas pelos próprios palestinos, a Suprema Corte israelense determinou substanciais ajustes no seu traçado. Como Israel é uma democracia (ao contrário de muitos países que o criticam), esta decisão já está sendo acatada.
Tampouco cabe a alegação de que a cerca configura uma apropriação de terras. O governo de Israel sempre afirmou que a cerca é temporária. Caso a Autoridade Palestina tome as medidas necessárias para impedir o terrorismo, a barreira de proteção vai se tornar inútil e ela será demolida. Em outras palavras, tudo que é feito pode ser desfeito, menos a perda das vidas que a cerca já está salvando.
NILTON AIZENMAN é advogado especialista em Direito Internacional

Metodologia tendenciosa
Altair Aparecido Galvão

Que o Governo Lula não está atendendo às expectativas de grande parte de seu eleitorado não é novidade para ninguém. Lula não está conseguindo honrar seus compromissos de campanha, em especial a reforma agrária, que poderia ser a solução para o problema da pobreza no país. Mas isso sabemos que está muito difícil de acontecer, pelo fato de a classe dominante jamais querer admitir que os pobres possam partilhar das coisas boas que a natureza nos proporciona.
Além de impedir as ações do governo, no que tange à melhor distribuição da riqueza nacional, a elite dominante procura denegrir sua imagem através da mídia, mascarando informações. A jornalista Miriam Leitão, em recente comentário sobre a crise do desemprego, alertou sobre a tendenciosa mudança da metodologia de pesquisa, a partir de 2003, que acabou causando o aumento do percentual de desempregados no país.
Essa mudança metodológica aconteceu, ''coincidentemente'', no início do mandato de Lula. Até o final de 2002, último ano do mandato de FHC, a metodologia empregada nas pesquisas, considerava apenas pessoas acima de 16 anos que estivessem realmente procurando emprego, que entregaram currículo em alguma empresa ou ainda que não estivessem exercendo nenhuma atividade, mesmo que informal.
A partir de 2003, a pesquisa considera como desempregadas todas as pessoas que não tenham carteira assinada nos domicílios visitados. Há fortes rumores que estão considerando como desempregados até crianças de 10 anos, o que é um absurdo, pois existe campanha condenando o trabalho infantil (até 14 anos).
Outro alerta que nos dá a jornalista é que os órgãos de pesquisa utilizam como fonte de consulta apenas seis capitais brasileiras, a saber: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife. É sabido que as cidades do interior estão se transformando em verdadeiras frentes de trabalho, mesmo assim não são consideradas. Os estados do Paraná, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina que estão em franco crescimento, tampouco são pesquisados.
Apesar de todos os problemas enfrentados na atualidade, é bem improvável que o desemprego tenha crescido, subitamente, de 7,4% em 2002 para 13% no início de 2004. Precisamos, pois, ficar atentos a esses números que nos são empurrados ''goela abaixo'' por institutos de pesquisa que, via de regra, pertencem à elite dominante que, sabemos, defende com unhas e dentes seus privilégios seculares e não aceita, em hipótese alguma, que alguém que não seja do seu meio tenha sucesso no comando do país.
ALTAIR APARECIDO GALVÃO é matemático e cientista social em Maringá

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