Vivemos um saudável momento de construção da sociedade democrática. Há vinte anos seria impensável essa discussão sobre as cotas para o ingresso nas universidades de alunos oriundos da escola pública e, entre estes, de negros. A discussão sobre os direitos de cidadania, porque é fundamentalmente disto que tratam as cotas, trazida à cena pública nos anos 80 explicita, claramente, um conflito cujos desdobramentos apontam para o tipo de sociedade moderna que estamos construindo.
Por trás das opiniões conflitantes, favoráveis e desfavoráveis, estão posições antagônicas que, de um lado, sinalizam para a emergência de uma sociedade cujas relações constitutivas da vida social, política e cultural sejam mediadas pelo entendimento da necessidade da generalização dos direitos, e isso significa o reconhecimento de uma cidadania ampliada, o reconhecimento de novos sujeitos de direitos como participantes ativos do debate público. De outro, a persistência da recusa à igualdade no partilhar a riqueza socialmente construída, que agora, afeita a um já decadente neoliberalismo, não se põe mais como ''idéia fora do lugar'', porque, a rigor, se coloca indiferente à exclusão, mas, se coloca sim, como ''idéia fora do tempo''.
Estamos, pois, em conflito numa sociedade que ora se anuncia como moderna mas que se pratica conservadora e, quanto a isso, estão aí os indicadores sociais mais absurdos, resultado de uma concentração de renda sem paralelo no mundo desenvolvido, redundando num ciclo vicioso de miséria e violência crescentes. Indignar-se contra esta realidade, abrir-se à construção do futuro de forma democraticamente partilhada com todos os segmentos sociais não é apenas uma questão de justiça, cuja noção não pode ser apartada da cidadania, é uma questão de inteligência para o acolhimento da diversidade na construção de um mundo melhor. E as cotas nos mostram essa perspectiva, como ação afirmativa que busca assegurar o ingresso no ensino superior de alunos desde sempre excluídos.
É saudável, portanto, vermos posições distintas se manifestando, e, neste sentido, o inaceitável não é que existam posições contrárias às nossas, mesmo que as achemos anacrônicas, mas que se fique indiferente neste momento rico de pensarmos coletivamente o nosso futuro. A proposição das cotas pela Universidade Estadual de Londrina, seguindo iniciativa de outras universidades, não poderia ser mais oportuna.
RICARDO DE JESUS SILVEIRA é professor do departamento de Ciências Sociais atual Diretor de Avaliação e Acompanhamento Institucional da Universidade Estadual de Londrina

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