ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de julho de 2004
Ricardo de Jesus Silveira 
Vivemos um saudável momento de construção da sociedade democrática. Há vinte anos seria impensável essa discussão sobre as cotas para o ingresso nas universidades de alunos oriundos da escola pública e, entre estes, de negros. A discussão sobre os direitos de cidadania, porque é fundamentalmente disto que tratam as cotas, trazida à cena pública nos anos 80 explicita, claramente, um conflito cujos desdobramentos apontam para o tipo de sociedade moderna que estamos construindo.
Por trás das opiniões conflitantes, favoráveis e desfavoráveis, estão posições antagônicas que, de um lado, sinalizam para a emergência de uma sociedade cujas relações constitutivas da vida social, política e cultural sejam mediadas pelo entendimento da necessidade da generalização dos direitos, e isso significa o reconhecimento de uma cidadania ampliada, o reconhecimento de novos sujeitos de direitos como participantes ativos do debate público. De outro, a persistência da recusa à igualdade no partilhar a riqueza socialmente construída, que agora, afeita a um já decadente neoliberalismo, não se põe mais como ''idéia fora do lugar'', porque, a rigor, se coloca indiferente à exclusão, mas, se coloca sim, como ''idéia fora do tempo''.
Estamos, pois, em conflito numa sociedade que ora se anuncia como moderna mas que se pratica conservadora e, quanto a isso, estão aí os indicadores sociais mais absurdos, resultado de uma concentração de renda sem paralelo no mundo desenvolvido, redundando num ciclo vicioso de miséria e violência crescentes. Indignar-se contra esta realidade, abrir-se à construção do futuro de forma democraticamente partilhada com todos os segmentos sociais não é apenas uma questão de justiça, cuja noção não pode ser apartada da cidadania, é uma questão de inteligência para o acolhimento da diversidade na construção de um mundo melhor. E as cotas nos mostram essa perspectiva, como ação afirmativa que busca assegurar o ingresso no ensino superior de alunos desde sempre excluídos.
É saudável, portanto, vermos posições distintas se manifestando, e, neste sentido, o inaceitável não é que existam posições contrárias às nossas, mesmo que as achemos anacrônicas, mas que se fique indiferente neste momento rico de pensarmos coletivamente o nosso futuro. A proposição das cotas pela Universidade Estadual de Londrina, seguindo iniciativa de outras universidades, não poderia ser mais oportuna.
RICARDO DE JESUS SILVEIRA é professor do departamento de Ciências Sociais atual Diretor de Avaliação e Acompanhamento Institucional da Universidade Estadual de Londrina
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