Crise de identidade

Altair Aparecido Galvão

O mundo está envolto em uma crise de identidade. Essa crise que assola a nossa civilização, quem somos e o que estamos fazendo aqui, é um acontecimento inerente à mudança de século, ou de milênio, como queiram. O cidadão comum luta no seu dia-a-dia contra os planos econômicos, com o sobe e desce na escala social, e não lhe sobra tempo para parar e refletir, para fazer as indagações básicas sobre o porquê e o para quê da vida, das lutas e loucuras cotidianas, do estresse e das preocupações que nos moem e nos corroem.
Segundo Stuart Hall, professor da Open University, Inglaterra, no final do século 20, falou-se muito em crise de identidade do sujeito. Conforme Hall, ''o homem da sociedade moderna tinha uma identidade bem definida e localizada no mundo social e cultural. Mas aconteceram mudanças estruturais que ocasionaram deslocamentos dessas identidades e se antes elas eram sólidas localizações, nas quais os indivíduos se encaixavam socialmente, hoje elas se encontram com fronteiras menos definidas que provocam no indivíduo uma crise de identidade''.
O momento que vive a classe política brasileira é um belo exemplo de crise de identidade. Um partido com fortes raízes socialistas (PT) se une a um partido ideologicamente liberal (PL) para ganhar a eleição. Recentemente, na votação do novo salário mínimo, enquanto parlamentares de formação trabalhista (PT, PCdoB) votavam por um salário de R$ 260, históricos representantes da elite - leia-se PFL, PSDB, PP, etc. -, que na era FHC defendiam a idéia que um salário maior quebraria o governo, lutavam para que o mesmo fosse alterado para R$ 275 ou mais. Paulo Maluf é outro político com crise de identidade, tanto que não reconhece a própria assinatura e jura que nunca teve conta no exterior.
Um empreendimento humano fundamental no combate ao fenômeno da crise de identidade é a busca de si mesmo, mas é uma prática que deve ser perseguida com a máxima cautela, evitando armadilhas. Algumas dessas armadilhas são a megalomania e o egocentrismo, que são características inerentes aos nossos homens públicos. Mas, antídoto para essas armadilhas nem o professor Stuart Hall tem.
ALTAIR APARECIDO GALVÃO é matemático e cientista social em Maringá

A Curitiba fantasma

Rodrigo D'Almeida Bertozzi

Que delícias maravilhosas podemos usufruir na bela e imaculada Curitiba? Quantos sorrisos a confundirem-se com as nuvens escuras no céu de outono. O mundo é mais individualizado do que em qualquer outro tempo e nossa cidade é uma digna representante deste movimento pós-modernista. A fuga dos vizinhos, o predomínio da aparência, a iconoclastia das celebridades, o consumismo desenfreado, a cultura fragilizada e a antipatia notória. Existem muitos segredos submersos em Curitiba como as pessoas a esconderem-se para não ter que usar o elevador com outras, a beleza muda das mulheres, as infinitas variações sobre o tema do clima, da elevada taxa de prostituição e das quatro estações em um único dia. Afinal, o essencial é invisível aos olhos.
Vivemos em uma cidade fantasma, uma espécie de falsa Londres, de posses esnobes e orgulho indevidamente insulflado. O pior tipo de ignorância é não ver a fina camada que nos envolve e nos cega, por vezes tão evidente para olhos atentos, mas que poucos gostariam de presenciá-la ou sentir na pele seus efeitos. É uma espécie de prisão. Se você não tem os músculos do Rambo, é um fraco; se não usa um tênis da Nike, é um infeliz; se não namora uma garota de formas tão perfeitas quanto a Gisele Bundchen, é um frustrado; se você não se parece com a última top model, pertence a uma raça alienígena. Nossa cidade ainda valoriza em excesso a imagem e toda a ilusão que isto acarreta. Não importa o que você foi, mas o que tem ou o que parece que tem. Assim nossa alma morre mais um pouco.
Para Carl Jung, todos nós nascemos originais e morremos cópias. Sim, cópias da sociedade estética que prevalece entre nós. Somos como pequenos universos que nunca se chocam.
Ainda sim, admito que amo esta cidade e seus fantasmas que passam de cabeça baixa por mim sem olhar em meus olhos negros. Talvez eu sinta um amor doentio por essa cidade. Doentio, mas ainda sim um amor. Desconfio que o curitibano tem receio do ridículo, por isso não se expõe. Para ser realmente livre será preciso perder este medo devorador e abrir-se para um novo mundo de estranhas belezas. Então, como contribuição, peço a volta do famoso topete curitibano que era presente em todas as classes sociais. Era a nossa maior identidade cultural, um legado que se perdeu injustamente no tempo.
Éramos tão felizes e não sabíamos.
RODRIGO D'ALMEIDA BERTOZZI é escritor em Curitiba

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