ESPAÇO ABERTO
Política e ética cristã
Marcia Caroline Portela Amaro
O fenômeno mais importante na caminhada de um cristão pela vida é o testemunho. Nada substitui ou compensa o autêntico comprometimento pessoal do indivíduo com Jesus Cristo e sua proposta de vida. Por melhor que seja a formação recebida ou a cultura acumulada, se não houver uma abertura verdadeira dos próprios conceitos, racionalidade e compulsões em prol do chamado à santidade que se estende a todos indistintamente, tudo passa a ser em vão e, no final, acaba levando ao nada.
Esse fenômeno pode ser observado em todas as esferas da atividade humana. Com um pouco de sensibilidade e imparcialidade, é possível avaliar, dentro do contexto sócio-político-econômico, aqueles que verdadeiramente vivem conforme pregam ou que, contrariamente, fazem discursos permeados de diversos ''pseudo-belos-princípios'' mas têm uma práxis, na maioria das vezes, absolutamente repugnante.
Como deve ser a atitude de um cristão num contexto como esse? Ser cristão significa, de maneira literal, ser ''outro Cristo''. Ou seja, a vida do cristão consiste em seguir na íntegra os passos do Mestre de Nazaré, sem titubeios, relativizações ou racionalizações (Mc 8, 34). Principalmente quando o chamado confronta-se com nossos mais egoístas e vaidosos projetos pessoais, é chegado o momento de se dar um passo maior e mais decisivo em direção ao Reino de Deus (Jo 21, 15-19).
Na Pastoral Fé e Política, da Arquidiocese de Londrina, trabalhamos com a evangelização de um dos setores mais complexos da atividade humana, especialmente na realidade brasileira, que é a política, compreendida como construção de cidadania, compreensão e controle dos processos determinantes dentro da organização social, a qual precisa sobremaneira seguir princípios minimamente éticos e cristãos, para o bem de todos.
Por tudo isso, é com muita tristeza que observamos determinados fatos no contexto político, que acabam por envolver também o contexto religioso. Quantos de nossos deputados, senadores e governantes em geral se dizem absolutamente ''cristãos'', especialmente em épocas eleitorais como a que se aproxima, e depois sequer param para pensar antes de cometer as piores falcatruas e omissões contra a coletividade.
Pior ainda é ver pessoas da própria Igreja ''prostituindo'' a fé e o respeito de que aquela ainda goza junto da população, em troca de vantagens ou meramente de alimentar a própria vaidade. Tristemente, o clero é o setor da Igreja que mais tem praticado esse tipo de barganha política, seja fazendo campanha para candidatos ou partidos específicos em pleno horário de missas, seja (pior ainda!) envolvendo-se pessoalmente em partidos políticos, ocupando cargos públicos ou mesmo disputando eleições, passando por cima deliberadamente da vocação maior da Igreja, que é ser fomentadora de unidade entre todos os seres humanos.
Mas falar em vocação da Igreja é por demais utópico numa realidade onde o que importa é o sucesso pessoal, a vaidade, o egoísmo, o materialismo e a capacidade de ludibriar o maior número possível de pessoas. São precisamente esses parâmetros que regem a mentalidade de um indivíduo que teve a capacidade de ignorar um sacramento como a Ordem e trocar o projeto do Reino pelo da ''minha carreira política''.
MARCIA CAROLINE PORTELA AMARO é coordenadora da Pastoral Fé e Política da Arquidiocese de Londrina
O centenário da Comarca de Jacarezinho
Em 1888, uma caravana composta por 254 pessoas (e dentre elas um padre, integrantes da corte imperial, fazendeiros, um médico e tantos outros) deixava a capital de São Paulo e se dirigia ao então sertão bravio do Norte do Paraná, de onde vinham notícias da existência de terras férteis.
Após uma jornada que durou meses, a pé, em liteiras e a cavalo, a caravana cruzou o Rio Paranapanema e chegou até o Estado do Paraná, onde se fixou ao lado de uma pequena água no lugar por eles denominado de bairro da Prata, hoje município de Jacarezinho.
De lá deslocou-se para as proximidades do Ribeirão Ourinho, onde, já em 1890, era criado o Distrito Policial de Jacarezinho.
Em 2 de abril de 1900, o Distrito era elevado à Categoria de Termo (Município) alterando seu nome para Nova Alcântara, mas retornando dois anos depois para Jacarezinho.
Por fim, em 9 de março de 1904, Jacarezinho passava a ser sede de Comarca, cuja instalação se deu no dia 1º de junho de 1904 quando então assumiu seu primeiro juiz de Direito, Artur Heráclio Gomes, e seu primeiro promotor de Justiça, Antônio da Silveira Xandó.
Esta, em breves palavras, a origem histórica de Jacarezinho, uma das comarcas mais antigas do Paraná, das mais importantes também, e que está agora comemorando seu centenário.
Palco de grandes acontecimentos jurídicos, de disputas por terras desde a sua fundação até meados do século XX e de litígios memoráveis, a Comarca de Jacarezinho chega ao seu centenário madura e consolidada como um importante pólo de desenvolvimento jurídico e cultural, condição que passou a abraçar já na década de 30 e que hoje prossegue com seus cursos superiores, dentre eles o de Direito, em uma faculdade estadual (a Faculdade de Direito do Norte Pioneiro) respeitada em todo território nacional como das mais importantes no cenário jurídico brasileiro.
Por isto, no momento em que grandes solenidades registram as comemorações do Centenário da Comarca de Jacarezinho, é importante voltarmos nossos olhos para o passado e confirmarmos que só se constrói a história de um lugar com muita luta, trabalho, denodo e dedicação.
E isto se fez e se faz ainda hoje em Jacarezinho, razão pela qual o centenário de sua Comarca serve de motivo para que se parabenize também sua gente e se reverenciem as suas origens, desde aquela caravana inicial que se constituiu numa autêntica epopéia na colonização do Paraná até aqueles que hoje lutam por ela.
CELSO ANTÔNIO ROSSI é advogado, conselheiro estadual da OAB-PR e membro da Comissão do Centenário da Comarca de Jacarezinho





