ESPAÇO ABERTO
Uma troca de idéias, caro amigo
Walmor Macarini
Quando chegamos a um suposto beco sem saída, caro amigo, é porque um novo portal está prestes a se abrir, para nos mostrar caminhos novos, nunca dantes percorridos. O beco é o indicador de uma nova saída, que nos levará, mais adiante, a outros becos e a novas saídas. Sim, o caminho já andado não tem nada de original. É enfadonho. Você abre um livro já lido e ali só existe leitura velha. Não há mais descobertas, e onde não há descobertas não há encantamento. Se nosso trabalho, nossos projetos, perdem significado, é porque eles se concluíram e há projetos novos à frente. Isto é sinal de tarefa cumprida, a dar sustentação a outra que virá.
O desencanto é um momento de passagem para um degrau mais alto. Quando começamos a sentir que certas coisas são perda de tempo, é porque o tempo passou a ter mais importância para nós. Uma sensação de angústia nos acossa, como se há algo melhor a fazer, embora ainda não se saiba o que. Mas esse algo está aí, pronto para ser manifestado. Quando toda a arte já vista e revista não tem mais graça como você diz, caro amigo é porque nossa remota memória começa a relembrar-se de outras artes, mais sutis. Não estaríamos preparados para elas se não houvéssemos trilhado pelas anteriores.
Sobre as nossas criações, mais vamos nos desinteressando de ser donos delas, porque, quando as fazemos manifestar-se, nada mais estamos revelando que a maestria para interpretá-las, eis que tudo que já estava pronto e concluído. Quando já não importam direitos autorais e alcançamos a visão de que tudo já é e apenas vamos buscá-lo, aí começamos a compreender que as idéias caem, sim, do céu. Cada qual reencontra as coisas afins. Poetas reencontram poemas já escritos, compositores reacham músicas já prontas ressoando pelas esferas.
Sim, caro amigo, já tínhamos o aviso do xeque-mate do desencanto que em dado momento chega. Dele só não tínhamos lembrança. E o artista operário, de que falas, este não cria se não é criador. Importa ser livre, mas ser operário ou não, importa pouco. Basta o dom de criar. Abrace seus dias cinzentos. Eles só são sentidos e percebidos por aqueles que conhecem também os dias ensolarados. Digo-o não porque você não o saiba, mas pelo evento de você ter solicitado uma troca de idéias.
Com toda certeza, renunciar à arte é renunciar à vida. Mas a que arte te referes, caro amigo, se esta que te enfada já não é a arte que queres?! Este desencanto que sentes é apenas o fechar do livro já lido. Você está diante de uma tênue cortina, que lhe aparenta um beco. Sente-se na poltrona dianteira desse palco e atente que a cortina vai romper-se, para lhe mostrar algo novo que o deslumbrará. Glorifique, caro amigo, este seu momento de desistência e de desencanto com as artes já vividas. Desista de retomar caminhos já percorridos, pois isto sim seria perda de tempo. Essa inquietude que o invade é o glorioso momento das inevitáveis transposições. Que nunca se sabe quando são as últimas.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina
O Paraná foi esquecido
Gustavo Fruet
Falta de clareza, indiferença e até mesmo desrespeito são qualificativos que podem ser empregados para definir o tratamento que o Paraná vem recebendo do governo federal. Há anos o Estado reclama da União uma atenção compatível com sua importância econômica. Muitas vezes, diferenças políticas serviram para explicar o não atendimento às reivindicações do Paraná. Não é o caso agora.
O governo estadual e o governador Requião são aliados de primeira hora do governo do PT. Apoiaram sua campanha e seus projetos desde o início. Em troca, o Estado tem recebido tratamento de adversário, totalmente inadequado à contribuição que dá ao país.
Não é demais lembrar que o Paraná é o maior produtor brasileiro de grãos e cumpre papel fundamental no suprimento de alimentos no país e na obtenção de superávits na balança comercial. É o quarto maior exportador brasileiro e um dos poucos estados aonde a produção industrial vem crescendo. Abriga um dos mais importantes portos brasileiros e produz grande parte da energia utilizada no país. A resposta do governo federal a essa contribuição tem sido o silêncio sobre todas as promessas feitas ao Paraná e sobre as reivindicações do Estado. Silêncio que custa caro a todos os paranaenses.
A conta é de R$ 800 milhões por ano apenas com perdas de arrecadação de ICMS da energia. Esse é o valor que o Estado deixa de recolher pelo fato de o ICMS sobre a energia incidir na ponta do consumo, ao contrário do que ocorre com os demais bens e serviços - casuísmo antigo, que foi mantido durante a apreciação da reforma tributária. Acrescente-se toda a dificuldade gerada para a Copel e o Paraná com a implantação do novo modelo energético, obrigando a estatal a incluir-se no pool de energia, apesar de todas as evidências técnicas que permitem um tratamento diferenciado.
A reforma tributária também manteve os créditos de ICMS relativos a insumos adquiridos pelas indústrias de papel destinado a jornais, livros e periódicos. Único Estado brasileiro a abrigar indústrias de papel de imprensa, o Paraná arcará com um ônus de R$ 30 milhões por ano, fora o estoque acumulado de R$ 82 milhões. É justo que receba alguma compensação por isso, assim como pelos recursos que investiu em obras tipicamente federais, como a Ferroeste e a duplicação da BR-376..
A lista prossegue com o caso dos precatórios de Santa Catarina, Osasco e Guaraulhos - uma história mal contada que gerou até uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Esses papéis representam um rombo de R$ 600 milhões nas contas públicas do Paraná. Responsável pela emissão de títulos, a União deveria assumir esta dívida e reembolsar o Estado, cobrando posteriormente esses valores dos respectivos emitentes.
Não bastasse o acúmulo de dívidas já históricas com o Paraná, o governo federal adiciona novos itens a essa relação, discriminando o Estado em seus programas sociais. Há poucos dias a imprensa noticiou que apenas 27% das famílias pobres do Paraná são atendidas pelo Bolsa-Família. Para ficarmos apenas na comparação com a Região Sul: em Santa Catarina o percentual é de 37% e no Rio Grande do Sul, de 36%. O valor repassado por família no Paraná é o menor do país: R$ 65,82, quando a média nacional é de R$ 72,81.
O governo, o empresariado, a classe política e a população paranaenses esperam que Brasília dê a devida dimensão à contribuição do Estado em favor do pacto federativo e do equilíbrio regional.
GUSTAVO FRUET é deputado federal pelo PMDB-PR





