ESPAÇO ABERTO
Guerra civil no Rio
René Ruschel
As cenas de combate entre a polícia carioca e os traficantes na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, são a prova explícita de que vivemos no Brasil uma guerra civil. Nas imagens mostradas pela televisão era visível o reflexo dos projéteis cortando o céu em plena madrugada e que em nada ficavam devendo àqueles que já assistimos aterrorizados em outros conflitos. À época, tínhamos a sensação que isso só acontecia ''por lá''. Os jornais estampam diariamente fotos de soldados armados até os dentes ao lado de crianças brincando nas ruas, como se tudo aquilo fosse absolutamente normal.
A questão se torna ainda mais grave se é que é possível ficar pior à medida que a situação vira rotina, aliás, o que também está ocorrendo. Daí, graças à incompetência do Estado em todos os setores, os bandidos assumem o poder local e se transformam em mecenas da comunidade, e esta, por sua vez, em escudo humano na proteção ao crime organizado. Assim, fica definitivamente institucionalizado o círculo vicioso do terror. As propostas para exterminar estas mazelas vão desde investimentos maciços na educação à adoção da pena de morte, passando pelo completo reaparelhamento das corporações, construção de presídios ou muros ao redor das favelas.
Nada, absolutamente nada será eficaz, enquanto tivermos no comando das forças de segurança pública políticos populistas e ineficientes como o secretário Anthony Garotinho e a governadora Rosinha Garotinho, sua esposa. Isso não exime o governo federal de sua parcela de responsabilidade, no entanto, o escárnio com que o casal trata a questão no Rio de Janeiro é estarrecedor.
Certamente que a raiz do problema está atrelada ao desemprego, à falta de investimentos em educação, saúde, moradia, à perversa distribuição de renda que, somadas, transformam o Brasil num deserto de esperanças. Mas alguma coisa precisa ser feita com urgência e, bem ou mal, esta responsabilidade compete ao Estado. As estatísticas recém-divulgadas pelo IBGE mostram que na última década a violência cresceu no País em 130%. O eixo Rio-São Paulo é apenas um foco em evidência, mas não é preciso ser nenhum Phd para saber que em qualquer cidade brasileira o tema segurança preocupa.
Se por um lado as ações políticas são frágeis, por outro, as instituições que deveriam zelar pelas operações de rotina, ou seja, as polícias civil e militar, além de desaparelhadas têm em suas fileiras uma banda podre e corrupta. Ora, na Itália a máfia vem sendo desbaratada pela ação conjunta da polícia, do Ministério Público, do Judiciário e do Executivo. Por que no Brasil isso não é possível? Porque falta vontade e determinação. O que sê vê é uma briga pelos holofotes da mídia, pelo espaço político-eleitoreiro, por cargos e funções, a partir de um discurso vazio, sem propostas ou projetos consistentes. O exemplo do Rio de Janeiro é perfeito: falta comando e sobra marginalidade. O que ninguém sabe é onde isso vai parar.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba
Ladeira abaixo
Vilson Antonio Romero
Apesar de alguns setores da indústria, como o automobilístico, ter batido recordes de produção em março e de o dragão da inflação dar mostras de estar domado, com a divulgação do menor Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado desde agosto de 1999 5,89% em 12 meses o segundo trimestre do ano preocupa e acende o sinal amarelo na Esplanada dos Ministérios.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) iniciou o seu abril vermelho, com mais de 60 invasões de propriedades desde 10 de março. Mais de 600 mil servidores públicos federais prometem entrar em greve na segunda quinzena de abril, terminando a lua-de-mel com o governo em quem a maioria deles votou. A caserna está inquieta, com manifestações públicas de apreensão, pois há mais de 330 mil militares sem aumento desde 2000.
Os governadores de outros partidos, principalmente do PMDB, que haviam apoiado o governo desde o início, começam a saraivada de críticas e queixas pela falta de recursos. O ex-assessor especial da Casa Civil, pivô do escândalo que paralisou o governo, passeia lindo, leve e solto por Brasília, sem que, dois meses depois, algo tenha sido esclarecido sobre o envolvimento ou não de cabeças coroadas da República.
Sacramentando a inquietação, sabe-se agora que, em 2003, o gasto do governo em programas sociais, que eram sua grande bandeira eleitoral, permaneceu estagnado e, segundo levantamento da imprensa paulista, se reduziu drasticamente em setores como urbanismo, habitação, organização agrária e saneamento, tanto em valores nominais, quanto em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).
A desesperança já ronda os palácios, refletindo a realidade das ruas, onde a aprovação do governo desce a ladeira. As pesquisas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do Ibope evidenciam a queda nos índices de aprovação do governo. Há uma outra manifestação preocupante: 52% dos entrevistados acham que o Brasil está no caminho errado, segundo o Ibope. Por mais que possa ser prematura a avaliação, algo deve ser feito, sob pena de a Nação seguir a trajetória da popularidade do governo: ladeira abaixo.
VILSON ANTONIO ROMERO é jornalista e diretor da Associação Gaúcha dos Fiscais da Previdência





