Dia Internacional da Mulher
Roseli de Moraes

Esta data simboliza o massacre às mulheres trabalhadoras. Tempos modernos utilizam de mecanismos medievais para ‘‘castigar’’ àquelas que buscavam melhores condições de trabalho. A mulher, integrante do grupo social dos excluídos, tem carga tripla de trabalho - o emprego, a casa, os filhos e os estudos, para aquelas que conseguem se adequar e chegar nas salas de aulas; são tarefas acumulativas e coletivamente cobradas. Para chegar a algum posto de destaque ou chefia, na maioria das vezes, ocupado pelo sexo masculino, tem que dar duro para garantir esse cargo enfrentando assédios de todos os tipos, inclusive sexuais.
Em muitos momentos defrontamos com estereótipos que nos são impostos e aceitos como normais. O homem é o forte, a mulher a frágil. O homem é o médico, ela a enfermeira, ele o chefe, ela a secretária, ele o fotógrafo, ela a modelo. A ele Deus deu o dom da oratória, a ela o dom maternal. A ele cabe o espaço político, a ela resta a experiência do secretariar. Em pleno século XXI impomos quotas para ocupar espaços.
Para sermos ouvidas, devemos alterar a voz, como os excluídos, fazer estardalhaço pois não há espaço para a negociação. O diálogo não existe - ele já decidiu. Aquela que contesta, questiona, altera para ser ouvida, é a louca, a solteirona, a desafeta, a machona, sapatão - o que não falta são sinônimos para tentar desqualificá-la.
As formas de agressão sobre a mulher são infinitas. Não bastando a própria cobrança social que lhe é imposta no papel de mãe, esposa e trabalhadora, enfrentamos uma mídia medíocre que nos impõe padrões de beleza. Formas brancas ‘‘perfeitas’’, estilizadas e siliconadas, incorporam nosso cotidiano. São cargas repetitivas dos anúncios de outdoors, cartazes, revistas especializadas mostrando como chegar à ‘‘perfeição’’.
A mutilação do corpo que antes se baseava no espartilho, hoje é substituído pelo implante em forma gelatinosa encontrada nos seios, bumbum e boca. Silicone e botox são produtos resultantes da sociedade moderna, onde a busca da superficial e eterna juventude está na luta contra as tranqüilas, em muitos casos dolorosas, marcas de uma vida- as rugas, normal flacidez muscular ocorrida pelo tempo. A mídia cantada nos compara a quadrúpedes como eguinha pocotó, cachorrona, popozudas e tantas outras tranqueiras do atual e desqualificado mundo fonográfico.
O essencial da busca de uma sociedade mais justa e humana está na reeducação de homens e mulheres, pois o inimigo maior - o capitalismo, leva a sociedade a se digladiar contra si mesma - uma briga dos sexos, classe, raça/etnia. Enquanto isso, uma minoria se esbalda em champanhe e caviar. O homem precisa compreender que a união é força necessária para o enfrentamento da divisão de classes, da pobreza, do desemprego, enfim de todos os sintomas característicos da sociedade capitalista.
Que a data 08 de março seja de fato uma data de reflexão, principalmente a nós mulheres, para que façamos uma reeducação em nossos atos e atitudes do cotidiano. Permitamos sermos mulheres, limitadas sim, pois dupla ou tripla jornada é para seres sobrenaturais. Somos humanas, vamos nos dar o direito de sermos felizes sim, respeitar e nos fazer respeitar. Somos protagonista da história, enquanto construtoras desta sociedade. As ‘‘bruxas’’ daquela época, aquelas que faziam, aconteciam e incomodavam, são as bruxas de hoje, e bruxas não espantam, elas encantam.
ROSELI DE MORAES é diretora de relações sociais do Sindicato dos Bancários de Londrina e região

(Des)construindo o mito mulher
Maria Eliza Corrêa Pacheco

Refletir sobre as comemorações do 8 de março, só tem sentido, se (des)inventarmos o mito inventado pelos homens. Parafraseando Simone de Beavoir, não acredito na existência de qualidades, valores, modelos de vida, especificamente femininos. Acredito que essa forma de diferenciação de comportamento ético e humano foi mais uma das invenções da sociedade dos homens, tendo como intuito o aprisionamento da mulher à condição de opressão.
Por isso, a (des)construção do mito mulher tem razão de ser na (re)construção histórica da inserção mundial do trabalho feminino. A luta é antiga e contou com a força de inúmeras mulheres que nos vários momentos da história da humanidade resistiram a organização da sociedade e a discriminação, reivindicando melhores condições de trabalho, uma vida mais digna e sociedades mais justas e igualitárias.
Nesse sentido, convido-os a reflexão sobre a igualdade de gênero, que precisa ser incorporada às negociações coletivas de trabalho, no sentido de assegurar melhores condições de vida, de forma a estabelecer parâmetros para a igualdade, a proteção e o incentivo ao trabalho da mulher. Essa luta transcende o espaço-temporal-político-econômico-cultural destinado à comemoração, pois, inicia-se com as negras e/ou brancas do período da escravidão e/ou da pós-modernidade.
Afinal, a trajetória social da MULHER não se limita apenas ao mundo do trabalho, mas também nas profundas transformações da vida privada. Enfim, é evidente que encontramos, ainda hoje, resquícios dos fundamentos da desigualdade entre os sexos na estrutura organizacional da sociedade, que impedem os seres humanos de ambos os sexos a desenvolverem igualmente suas potencialidades individuais e de participação política e social. No entanto, o SER MULHER procura através do diálogo estabelecer as diferenças, o que não implica no predomínio do masculino sobre o feminino, pois as diferenças é que nos dão a certeza de um encontro mais profundo.
MARIA ELIZA CORRÊA PACHECO é diretora de Assuntos Sociais e Culturais do Sindicato dos Professores de Londrina (Sinpro)

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