Evasão de riquezas e patriotismo
Nelson Araújo de Oliveira


Ufanarmos-nos do solo que nos serviu de berço é algo inerente ao homem. Essa afeição à pátria é inseparável e faz o homem orgulhar-se da terra onde nasceu, legitimando seu ego. Percebe-se que o homem nascido na América do Norte ostenta maior orgulho de sua pátria do que os estrangeiros, em relação à pátria deles. Entretanto, a definição de amor à terra em que se nasce não é comparável, proporcionalmente, à riqueza dessa terra, quando se vê que um beduíno honraria com o mesmo entusiasmo (do americano) o árido deserto em que nasceu.
Como, então, definir patriotismo? Que espécie de ilusionismo ou quais sentimentos poderiam aumentar ou diminuir o amor à terra natal?
Evidentemente, existem vários problemas, quase insolúveis, que afligem os países subdesenvolvidos, impondo-lhes cerceamento a esse amor à pátria. Entre esses problemas, há dois extremamente prejudiciais aos países pobres: a evasão de riquezas financeiras, em forma de juros da dívida; e a migração de inteligência dos países pobres para os países ricos, especialmente para os Estados Unidos.
A poderosa nação do Norte, primeira potência mundial, é hoje a pátria amada por milhões de estrangeiros naturalizados ou com domicílio permanente naquele país. São cidadãos de várias partes do mundo que ajudaram e ainda ajudam a construir a grande nação americana. Essa poderosa nação, entretanto, nunca andou sozinha, com suas próprias pernas. Foi sempre auxiliada pelas grandes inteligências mundiais. Com raras exceções qualquer cidadão do mundo gostaria de viver na América do Norte. Atualmente, porém, só existe espaço para profissionais de alta qualificação.
A praxe de países ricos em recrutar os melhores talentos entre os países pobres ainda existe. Os Estados Unidos vão além disso: o gigante do Continente americano tem aliciado ingleses, alemães, judeus e outros. São milhões de estrangeiros qualificados progredindo e enriquecendo junto à nação americana, enaltecendo-a.
Essa concentração da renda, da cultura e do conhecimento científico nos países ricos deixa os países pobres cada vez mais pobres; por via de regra, mais atrasados. Em consequência, evidentemente, provoca o ódio nas populações mais pobres.
O processo migratório unilateral, de profissionais especializados e das divisas financeiras dos países pobres para os países ricos provoca as invasões clandestinas em massa; os atentados terroristas; as lutas armadas entre facções políticas; as guerrilhas etc. A escassez de idéias criadoras, de forças políticas nacionalistas e de recursos financeiros são causas principais da exclusão social e da fome nesses países subjugados. É preciso que as pessoas inteligentes e as riquezas financeiras retornem às origens para que se restabeleça o equilíbrio racional dos povos.
NELSON ARAÚJO DE OLIVEIRA é professor aposentado em Londrina

Por que insistir com a política econômica
José Ivan Cipoli Ribeiro

A atual política econômica e a anterior de FHC, que nos foi submetida, conhecida erroneamente como neoliberal, trará no mínimo dissabores. Não é liberal, pois o conceito pressupõe a pouca presença do Estado na vida da sociedade civil, e o presidente anterior e o atual estão elevando a carga tributária e fiscal de 24% para os incríveis 40%, e o pior, sempre negando o aumento.
A desculpa é a de sempre: não se deve deixar de pagar dívida anterior. Devemos também não esquecer de que o débito foi feito e consentido pelos bancos internacionais com aval do FMI e auxílio do Banco Mundial. O FMI é responsável pelo diálogo entre as autoridades do País em questões macroeconômicas e estruturais correlatas, ao passo que o Banco Mundial assume a vanguarda nas questões sociais e estruturais.
O FMI nos elogia diariamente, como fez com a Argentina e com os países da Ásia, inadimplentes, e é nosso avalista e nos mantêm em controle nas tarifas públicas em evolução, impostos e juros. Atua como monitor da moeda nacional ajudando a manter um sistema ordenado de pagamentos entre os países e concedendo empréstimos aos membros que enfrentam sérios déficits no balanço de pagamentos, enfim, dando liquidez ao sistema, garantindo o pagamento de dívidas - principal e juros. Em resumo, garantindo os pagamentos aos empréstimos concedidos para a banca nacional e internacional.
A presença do Estado no Brasil não é como no tempo da ditadura, com repressão física e tortura, houve mudança, e ele se faz notar nas pequenas coisas, nas pequenas compras ou custos dos deslocamentos pessoais é asfixiante a dificuldade atual. O governo é um extrator de reservas financeiras, de poupanças, pois há meses sem compra no comércio, a população guarda seu salário para saldar as dívidas da família. Tudo para saldar as dívidas que os credores conheciam e que sabiam ser impossíveis de pagar, a não ser os juros, que são exorbitantes.
Pagando todos os juros da dívida estamos resgatando somente 50% deles, o que significa aumentar mensalmente o total que é capitalizado. Ela se tornou uma dívida impagável. Todo o sacrifício será em vão.
Nunca vi ou li a respeito de raposas elogiarem o sistema de seguro das granjas que servirão o próprio banquete. A política se resume em elevar o superávit fiscal (4.25%) e a metas fiscais. As despesas do setor público com o pagamento de juros atingiram nos primeiros oito meses de 2003 R$ 102,417 bilhões, ou 10,2% do PIB . O crescimento das despesas com juros foi provocado, basicamente, pela política de juros altos adotada pelo Banco Central para conter a inflação, de tal forma que a medicação poderá ser o veneno.
Se por um lado essa política conseguiu conter o consumo que nunca foi o forte do Brasil, fixou uma meta de superávit primário (receitas menos despesas, sem os gastos com pagamento de juros) de 4,25% do PIB que não será suficiente para evitar o crescimento da dívida pública.
O governo cortou gastos em todos os setores e, com isso, conseguiu acumular até agosto um superávit primário de R$ 49,293 bilhões. No entanto, o pagamento de juros atingiu R$ 102,417 bilhões no mesmo período. Os números simplesmente dizem: a atual política econômica não dará certo, por que insistir?
JOSÉ IVAN CIPOLI RIBEIRO é médico neurologista e professor de Neurologia da Universidade Estadual de Londrina

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