ESPAÇO ABERTO
Humano Ser
Manuel Castro Lahóz
A importância dos computadores e da Internet e os seus efeitos ainda estão longe de serem compreendidos pelo homem. Existe o lado bom, de repente o mundo ficou pequeno de tão grande, e infinito. A comunicação e a informação assumiram uma dimensão que nos confunde sobre onde começa a ficção e onde termina a realidade, e vice versa.
A nossa mente não estava preparada para uma mudança de tal dimensão. Hoje todo ser humano possui uma parte maior ou menor que é puro ''tele'', estamos sendo transformados em instrumentos cibernéticos. A utilização dos computadores e da Internet em todos os campos da experiência humana faz com que coloquemos o prefixo ''tele'' em tudo: telemedicina, telengenharia, teleciência, telejornalismo, teleconferência, teleresponsabilidade, telematuridade, telenamoro, e assim por telendiante.
Hoje temos acesso a todo tipo de informação e podemos trocar experiências com pessoas de todo o mundo sem sair de nossa casa, é uma interação diferente de todas as outras, ao mesmo tempo fantástica e assustadora; nela somos privados do contato olho no olho a que estamos acostumados, e se, no olho no olho a ética e a responsabilidade já deixam muito a desejar, no telecontato fica completamente teleobscuro.
Mas os resultados, efeitos e consequências que existirem serão objetivamente concretos e diretos em nosso corpo, em nossa mente, em nosso espírito, em nossa vida. Nada é de graça, se você não precisou pagar nada, alguém pagou. Esse novo mundo, essa nova realidade, tem um telecusto, e tem um senhor telempacto em nossas vidas, em todos os seus contextos: pessoal, familiar, social, intelectual, emocional, religioso, profissional, teletc e teletal.
Sem dúvida existe hoje um conhecimento coletivo e uma inteligência coletiva armazenada dentro de sistemas inteligentes organizados em redes de alta tecnologia informatizada em conteúdos virtuais totalmente à disposição de quem estiver alfabetizado digitalmente e bem teleplugado. (ufa!)
Vivemos uma nova era aC/dC, agora é antes do computador e depois do computador. Inútil, sem propósito e imbecilidade tentar contestar a fenomenal mudança que esta nova era significa para a humanidade, para a evolução do homem. As possibilidades que o telehoje nos proporciona são promessas de vida, de qualidade, de sabedoria, de cura, mas apenas se o homem do telehoje for melhor que o homem do dinontem (homem dinossauro), ou daquele parente nosso, não tão distante, que matou Jesus Cristo.
Mas parece que o homem do telehoje é até pior, pois vive vendendo Jesus, fazendo absolutamente o contrário do que ele ensinou, e na maior teleindiferença. Usa seus telepoderes para telemaldades, por isso a exclusão social nunca foi tão cruel, o desemprego tão humilhante, e o ser humano tão frag-men-tado.
Continuam existindo bandidos, piratas, reis, faraós, guerras, violência, injustiça, impunidade, abusos contras as mulheres, crianças e idosos, orgias, discriminações, traições, e o homem usa tudo isso para iludir os inocentes e inconsequentes, pessoas que escolheram se acomodar na displicência e ser comandadas, deixando acontecer para ver como é que fica, e colocando nas mãos de Deus todas as suas responsabilidades.
A diferença que faz a diferença é que agora a gente fica sabendo quase tudo, assiste quase tudo, e como escolhe fazer quase nada, estamos ''muito bastante'' com a auto-estima e auto-imagem abaladas, e mais do que ''o'' necessário acomodados e entediados. É bom começarmos a pensar maneiras de mudar nossa participação neste mundo, criticando menos e fazendo mais, senão este ano será idêntico ao ano que passou.
MANUEL CASTRO LAHÓZ é médico psicoterapeuta cognitivo e pós-graduado em Administração de Empresas e Psicopedagogia.
Estímulo eficiente
Antonio Delfim Netto
Na primeira reunião do ano com seus ministros, o presidente Lula disse que vai cobrar de todos eles ações que resultem na criação de empregos. O emprego, hoje, é a maior aspiração dos brasileiros que aprenderam nestes últimos anos que ele só se cria quando a economia está em crescimento.
Para existir crescimento é preciso que haja investimentos, tanto no setor público como no setor privado. Com as privatizações dos anos recentes e a desmontagem de áreas técnicas do setor público, o Estado teve diminuída a sua capacidade de investimento e até de planejar. Está hoje reduzido a um instrumento de regulação do mercado e assim mesmo com muitas dificuldades. O papel do governo é o de atrair os investimentos privados para as obras públicas. Ele precisa convencer os empresários que os contratos serão respeitados e que mesmo as condições estabelecidas nas privatizações horrorosas serão honradas. É fundamental que todo o governo se empenhe nessa tarefa, para que se realizem os investimentos privados em rodovias, portos, ferrovias e energia elétrica, sem o que o desenvolvimento não se sustenta.
Quanto aos investimentos no setor privado, é preciso superar esta fase de relatórios e partir para os estímulos fiscais e creditícios de forma direta e prática. Não estamos usando os instrumentos que o governo tem, como é o caso da Caixa Econômica na alavancagem da construção civil, setor que mais absorve empregos. Não adianta apenas falar em política industrial. É preciso fazer a política industrial, uma política voltada realmente para a criação de empregos e para o aproveitamento das vantagens comparativas que permitam ao Brasil continuar expandindo suas exportações.
Não vamos nos iludir: os empresários só vão se convencer quando desonerarmos os investimentos em bens de capital. Eles só vão investir mais no setor exportador quando for garantida, de fato (e não apenas de direito) a exoneração de toda a tributação nas exportações. É preciso alongar, cadenciadamente, os prazos de recolhimento dos impostos nos setores industriais que produzem os bens de consumo de massa e mais: reduzir a carga tributária discriminadamente entre um produto e outro para que o empresário possa escolher certas linhas de produção. Finalmente, criar as condições de financiamento e juros que estimulem o espírito empresarial.
Essa idéia que, conseguida a estabilidade, o crescimento se fará sozinho é falsa. O desenvolvimento econômico e com ele os empregos desejados por Lula e por todos nós só voltará se o seu governo for eficiente no estímulo aos investimentos.
ANTONIO DELFIM NETTO é economista e deputado federal pelo PPB de São Paulo





