ESPAÇO ABERTO
Quando Jesus disse ''Eu sou o caminho, a luz e a verdade, a ressurreição e a vida'', quis nos dizer que estes eram atributos dele e de todos os indivíduos; quis nos fazer entender que cada um de nós tem em si o caminho, tem em si a luz, tem em si a verdade, tem em si o determinismo divino da ressurreição o nosso glorioso retorno à origem e que cada um é parte integrante da Grande Vida.
Jesus não se assumia como o caminho para nós, a luz para nós, a verdade para nós, a vida para nós como se não tivéssemos direção e capacidade mas quis nos dizer que fizéssmos como ele, que aqueles dons eram inerentes a todos, porque não éramos diferentes dele. ''O que eu faço vós também o fareis'', o que significa dizer que o que ele é, cada um de nós o é também.
Jesus quis nos revelar a mesma coisa quando afirmou que ''o Reino está em vós'', significando que a presença divina está em cada um, que todo ser encerra em si a vitoriosa presença Eu Sou. O que temos feito, porém, é nos desobrigar de compromissos e entregá-los nas mão das divindades Jesus principalmente como se a elas incumbisse a missão de solucionar os nossos problemas (aqueles que, na maior parte e conscientemente, temos criado para nós mesmos), promover nossas curas depois que, por conta de nossos vícios (físicos e mentais) nos descuidamos de zelar pela saúde, enfim nos agraciar com todos os benefícios terrenos mediante nossas simples lamúrias e pouco esforço pessoal.
Ora, o ministério maior de Jesus, em sua passagem terrena, foi nos dizer que somos uma fraternidade, que temos que amar ao próximo e amar a nós mesmos, que não façamos aos outros aquilo que não queremos que façam conosco, e, mais que isso, que façamos sem visar a contrapartida da recompensa. Mas o que temos visto é a crença no poder de terceiros... a fé de resultados, de apenas pedir e obter, mendigando ''aos outros'', fora de nós. O real sentido da fé é a crença no próprio poder, porque, por herança divina, somos detentores de todos os atributos.
Cada qual deve achar Deus em si, achar Deus em seu próximo, aprender a descobrir o próprio poder. Não era Jesus quem dizia ''a tua fé te curou''? Ele nunca disse ''a minha fé'' mas a ''a tua fé''! Mas o homem, ao invés de atentar para o sentido de suas palavras, preferiu adorá-lo e convertê-lo em seu salvador. Muito mais cômodo... O próprio Mestre demonstrou que não era nenhum salvador, até porque não poderia interferir no livre arbítrio dos homens. Ele apenas quis passar ensinamentos da verdade. Não nos disse tudo, pois não entenderíamos ainda, mas disse o suficiente até então. Agora chegam novas revelações, que poucos entendem, porque sequer entenderam as anteriores.
WALMOR MACARINI é jornalista
Papel imune e a concorrência ética
Qualquer mercado, em todos os setores de atividades, somente será harmonioso e forte quando as regras do arcabouço legal forem as mesmas para todos os agentes de uma cadeia produtiva. Privilégios, institucionalizados ou não, distorcem quaisquer mercados. Bons concorrentes são aqueles que, em vez de se atirarem a uma competição irracional, utilizando-se de artifícios sem limites éticos, trabalham juntos pela valorização e aperfeiçoamento do mercado em que atuam.
No setor gráfico, indícios do uso irregular do chamado ''papel imune'', visando reduzir artificialmente os custos na ponta da produção, vêm sendo identificados pelo mercado e pelas autoridades há mais de 30 anos. Este processo, ética e legalmente condenável, sofreu evidente recrudescimento a partir de meados dos anos 90, quando a combinação de elementos como o aumento da carga tributária e a globalização econômica acirrou dramaticamente o grau de concorrência no mercado gráfico.
Esse tipo de comportamento ainda tem como combustível extra a falta de uma caracterização legal mais precisa de alguns produtos, como acontece particularmente no caso dos periódicos. Um vácuo que abre brechas para justificativas oportunistas de sonegadores, mas também para interpretações simplesmente equivocadas da lei por parte de empresas idôneas.
Para o setor gráfico como um todo, este problema tem o peso de verdadeira concorrência desleal e ato de ''canibalismo'' empresarial. Afinal, espremidas pela pressão da clientela para reduzir preços e enfrentando orçamentos barateados irregularmente pelo uso do papel imune, diversas empresas viram-se obrigadas a reduzir suas margens, colocando até em risco sua viabilidade operacional. Diante deste quadro, a Abigraf (Associação Brasileira da Indústria Gráfica) e a Receita Federal vêm realizando trabalho conjunto de conscientização, esclarecimento e fiscalização do uso, comercialização e distribuição do papel imune.
A Abigraf engajou-se fortemente no combate a esta prática ilegal. Em 1994, juntamente com associações e sindicatos representativos de fabricantes e distribuidores de papel, divulgou nota ao mercado condenando a sonegação e esclarecendo sobre os riscos e penalidades envolvendo o desrespeito à legislação. Dois anos mais tarde, divulgou texto semelhante aos clientes de produtos e serviços gráficos, enfatizando aspectos como a co-responsabilidade e a chamada solidariedade tributária, que de certo modo os iguala como réus e sonegadores a importadores, fabricantes, distribuidores ou gráficas flagradas em delito. Vinte mil exemplares desse comunicado foram encartados em edições do Anuário Brasileiro da Indústria Gráfica.
Mais recentemente, a entidade realizou gestões nos órgãos públicos que desencadearam mudanças, como a obrigatoriedade de registro especial na Secretaria da Receita Federal para fabricantes, usuários (empresas jornalísticas e editoras), importadores, distribuidores e gráficas que desejam utilizar o papel imune, consubstanciada na Instrução Normativa SRF no 71/2001, alterada por outra de nº 101/2001, que ainda instituiu a Declaração Especial de Informações Relativas ao Controle sobre o Papel Imune (DIF - Papel Imune). Desde então, a Abigraf Nacional vem colaborando para a divulgação de prazos e esclarecendo dúvidas do mercado sobre este procedimento.
A entidade também elaborou, há cerca de um ano, o Guia Orientativo - Papel Imune, mais um passo nessa direção do esclarecimento e do entendimento, visando à prevalência de um mercado equânime e justo, inclusive como parâmetro técnico para as autoridades da Receita Federal. Elaborado para que as empresas do setor tenham referenciais legais e operacionais corretos, o guia não esgota todos os aspectos controversos da questão, mas deve continuar sendo entendido como contribuição para que o mercado se balize por conceitos como ética, qualidade e competitividade, afastando os sonegadores que, sejam quais forem suas razões, apenas degradam a imagem e a saúde financeira da indústria gráfica.
Em momentos de retração econômica como o vivido pelo Brasil este ano, é preciso redobrar os cuidados relativos à concorrência ética. Os setores que se pautarem unanimemente pelo respeito às leis e normas têm muito mais oportunidade de emergir das crises macroeconômicas mais fortalecidos, harmoniosos e depositários da credibilidade de seus clientes, fornecedores e da sociedade como um todo.
MÁRIO CÉSAR DE CAMARGO é empresário gráfico, administrador de empresas e bacharel em Direito, e presidente nacional da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf).





