ESPAÇO ABERTO
As duas pirâmides
Gaudêncio Torquato
Dois formatos de pirâmides enfeitaram as primeiras páginas dos jornais desta semana. Sob o fundo do primeiro formato, o das pirâmides de Gizé (Queóps, Quefren e Miquerinos), no Egito, Lula e sua mulher, Marisa, posaram para uma foto que tomará abrigo secular no álbum da história presidencial. O outro formato é o de uma pirâmide invertida, onde a base fica em cima e o topo, em baixo. Dela também se fez um registro no mesmo dia da foto da pirâmide normal. Mas a pirâmide invertida, ao contrário da beleza das pirâmides egípcias, não foi apresentada por meio de um ícone, um desenho, mas por gráficos de pesquisas que, mais uma vez, detectaram a paisagem do governo Lula: a política econômica, como base mais sólida da administração, ocupa o alto da pirâmide, e as políticas sociais, tênues e fragmentadas, estão lá no sopé.
Uma pesquisa feita pela GT Marketing e pela CEPAC junto a formadores de opinião em todo o País procurou avaliar o ministério do governo Lula. Os resultados atestam o que tem sido o maior motivo de críticas da administração petista: a força da política econômica e a fragilidade da política social. Convidados a atribuir uma nota de 0 a 5 para os ministros, os formadores de opinião elegeram o ministro da Fazenda, Antônio Palocci (3,89), o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues (3,50) e o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan (3,39) como os líderes da ação governamental. Na lanterninha, ficaram os ministros da Previdência, Ricardo Berzoini (2,34), da Educação, Cristóvam Buarque (2,11), da Saúde, Humberto Costa (1,66), do Trabalho e Emprego, Jaques Wagner (1,61) e do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto (1,28). Outros nem foram considerados.
Ora, a avaliação feita por formadores de opinião bate com os resultados de mais uma pesquisa do Instituto Sensus, divulgada pela Confederação Nacional dos Transportes. O que chama a atenção nessa pesquisa é o forte teor de indignação que se extrai dos dados. Na percepção da população, a violência assume uma posição de extraordinária gravidade, fato que certamente está por trás da espantosa (88% dos entrevistados) aprovação da redução da idade penal para 16 anos. Ou seja, a sociedade busca meios que julga mais efetivos para combater a criminalidade. Vejam só: mais de 50% tiveram parente, amigo ou conhecido como vítimas de assalto, no último ano.
Quanto à corrupção, a percepção é a de que o Brasil não só é o país mais corrupto do mundo como o Poder Judiciário é o mais corrupto. A percepção difere da realidade. Como o Poder Judiciário, nos últimos tempos, tem sido objeto da lupa midiática, a percepção é a de que os juízes são mais corruptos. É também uma forma de indicar que a corrupção, de tão generalizada na área política, já se tornou coisa banal. Ninguém nem mais percebe. O Judiciário, ao contrário, fechado em sua redoma, quando submetido ao exame de vísceras, mostra partes podres, o que provoca maior impacto. Assusta ver um poder sagrado e intocável jogado na vala comum dos pecadores.
São visíveis nas pesquisas os limites entre os territórios da economia e das políticas sociais. O elemento integrador dos dois espaços é o próprio Lula. A população, ao continuar atribuindo boas notas à avaliação do governo como um todo, leva em consideração o perfil do presidente, sujeito carismático, disposto, sincero, corajoso e, agora, um vendedor que corre mundo a abrir fronteiras exóticas, como essas do Oriente, falando das coisas do País, tocando um mundo distante e que desperta muita curiosidade. Ou seja, Lula ainda não foi contaminado pela má avaliação dos programas sociais de seu governo. Nem mesmo o desemprego em alta afeta a imagem presidencial. É como se um véu de encantamento - nesse caso, um véu concreto de tecidos orientais - nos espaços litúrgicos de danças, cores, ritmos e sons estranhos, palácios e pompa, cobrisse no cérebro nacional a parte crítica, dando-lhe licença para funcionar somente após as festas natalinas e a entrada do Ano Novo.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor da Universidade de São Paulo e consultor político
Um bom ano político
Antônio Delfim Netto
Final de ano, hora de atender aos pedidos de avaliação do comportamento da economia em 2003 e falar das expectativas para 2004. Este ano que termina viveu uma transição muito difícil na economia, mas foi singularmente feliz sob o aspecto político-institucional. Após a adesão do Partido dos Trabalhadores aos princípios da Constituição de 1988, a forma civilizada da transição política, com a tranqüila passagem do poder entre partidos e pessoas de concepções tão distantes, marca 2003 como um ponto de inflexão importante em nossa história. Uma sucessão sem turbulências, no formato digno das verdadeiras repúblicas regidas pelo sistema democrático.
No que diz respeito à economia, o ano começou de forma dramática, com uma recidiva de inflação que apontava para uma taxa anual de 35% ou 40%, obrigando o governo a tomar medidas extremamente duras: o ministro Antônio Palocci elevou a meta do superávit fiscal para 4.25% do PIB e o Banco Central completou o choque subindo a taxa de juros para 22,5%, o que empurrou o país no caminho da recessão. Medidas necessárias que produziram rapidamente o efeito de derrubar as taxas de inflação, de tal sorte que já no quinto mês de governo ela dera claros sinais de reversão, suficientes para permitir ao governo aliviar a mão pesada da política monetária.
Não vou insistir na crítica depois que o futuro virou passado, mas os resultados mostram que o Banco Central exagerou no seu conservadorismo. O preço que estamos pagando é o crescimento do PIB ainda menor do que em 2002, com alta probabilidade de encerrarmos 2003 com crescimento nulo ou até negativo. Significa, renda em queda e desemprego em alta para o povo brasileiro.
Este enorme sacrifício começa a ser compensado com o surgimento de sinais indicando que o Brasil está se preparando para um período de expansão em 2004. O sinal mais importante aferido pelo IBGE é o crescimento dos investimentos no setor produtivo a partir do terceiro trimestre de 2003 . É verdade que se trata de comparação a partir de uma base muito baixa (o terceiro trimestre de 2002), mas é uma inversão altamente positiva, mostrando inclusive a recuperação das importações de bens de capital.
Esse aumento dos investimentos, combinado com algum aumento do consumo que certamente vai acontecer pela expansão do crédito, mostra que a economia está criando as condições para se comportar de forma significativamente melhor em 2004, com maior crescimento da produção e finalmente alguma geração dos empregos ardorosamente desejados.
Não tendo mais a ameaça da inflação, o governo Lula não pode deixar perder esse embalo. Uma boa ajuda seria esta semana o Banco Central baixar no mínimo 150 pontos a taxa básica de juros.
ANTÔNIO DELFIM NETTO é economista e deputado federal pelo PPB de São Paulo





