Existe vida após o HIV
Ademir Benedito Alves de Lima

A partir da notificação médica sobre nosso contato com o vírus HIV, passamos a ter uma nova posição perante a vida. Dependendo da nossa coragem, as coisas podem melhorar. No primeiro momento, é natural uma sensação de vertigem, falta de chão sob os pés, o desespero, enfim, é a nossa negação da morte, que nada mais é do que a força motriz nos impelindo para a vida. A percepção da morte e da vida é um constructo diário. Depois do primeiro momento, seguimos adiante.
‘‘Navegar é preciso, viver não é preciso’’ na letra do fado. A navegação obedece uma precisão. Mas na vida nada é preciso, tudo é incerto. Passado o ‘‘susto’’, fazemos opções. A melhor opção é pela vida. Fracassos são seguidos de nova chance; erros, de perdão; romances, de dor; amores impossíveis, de um certo tempo, afinal, o impossível necessita de um tempo maior . Talvez seja por isso que a Aids ainda não tem cura.
Bom é viver sem HIV. Mas, se infelizmente o vírus um dia passar a conviver conosco , deve-se buscar a sobrevivência da melhor forma possível. Viver com HIV requer cuidados especiais com corpo, amizades, palavras, natureza, trabalho e ética.
Nosso País tem o melhor programa do mundo no tratamento das pessoas soropositivas. Devemos preservar esse programa. Preservá-lo passa também pelo comportamento adequado do soropositivo. Isto significa que a pessoa soropositiva deve trilhar os caminhos das políticas afirmativas que dão suporte à sua condição. Disciplina para todos os atos parece ser também um item a considerar para contribuir na preservação do referido programa.
Uma pessoa vivendo com Aids , como qualquer cidadão, deve se pautar pelo combate aos preconceitos, combate às barreiras moralistas e religiosas que impeçam o exercício da cidadania. Nesse sentido a legislação nos dá bom respaldo. Mas é preciso estar sempre atento, burlar a lei é especialidade do ser humano. Sendo assim, para garantir direitos e respeito é necessário luta e persistência.
A vida com o HIV não é ócio, é sacrifício, quase um sacerdócio. No entanto, muito se pode fazer no sentido de que mesmo com HIV, pode-se viver bem. Mas precisamos aceitar os limites, entender que sexo sem segurança é extremamente perigoso e abominar de vez a nova onda americana dos ‘‘barebackers’’ (os que fazem sexo sem camisinha). Os ‘‘barebackers’’, jovens em sua maioria, já estão se ramificando no Brasil.
Os medicamentos que hoje dão uma sobrevida aos portadores do vírus HIV, cobram um ‘‘pedágio’’ caro para quem os toma. Há inúmeros efeitos colaterais imediatos e de longo prazo. Os medicamentos podem apresentar falha terapêutica, o vírus pode ficar resistente ao ‘‘coquetel’’. Embora seja uma situação quase insuportável, não há, ainda, outra maneira para se combater o tão propalado vírus. Por isso tomar os medicamentos nos horários prescritos é fundamental.
É possível viver com o HIV, desde que o organismo seja uma boa máquina, que suporte a agressão dos medicamentos, muita disciplina e boa disposição para as renúncias que surgirão. Para completar: suportar com um sorriso o desprezo e a arrogância dos ignorantes que, sem dúvida, lançarão um olhar de superioridade e presunção ao descobrirem que você é um soropositivo. Mas vamos ficar com a poetisa Cecília Meireles ‘‘A vida só é possível reinventada’’. Com ou sem HIV, estamos aqui para lutar e garantir nossa cidadania. Por causa dos homens e das mulheres do bem é que ainda sobrevivemos ao caos da vida contemporânea, com guerras, doenças, corrupção e violência. Navegar é preciso, viver não é preciso.
ADEMIR BENEDITO ALVES DE LIMA é colaborador da Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids, bibliotecário e presidente da Cipa na Embrapa Soja em Londrina

Pena de morte é solução?
Gilberto Jordão

A pena de morte, que muitos defendem, é a saída fácil para eliminar um problema grave existente em nossa sociedade. A decisão de tirar a vida de um ser humano qualquer, é o atestado da incompetência de qualquer sistema de governo.
A pena de morte nada mais é que a exterminação das pessoas perversas de um sistema social, justamente porque o Estado não possui subsídios necessários para educar e transformar o mau cidadão em um cidadão do bem. A chamada pena máxima é um sistema fácil e prático de eliminar os cidadãos, que o próprio Estado não consegue educar ou reeducar. É a prova da incompetência de um sistema organizacional qualquer.
Não resta dúvida alguma que os crimes praticados por esses fora-da-lei revoltam a população. A vontade é de eliminá-los do nosso meio social pelo mecanismo simples: o da morte. Mas, a pena de morte irá preservar a sociedade?
Os EUA, na Constituição datada de 1787, deixam à mercê dos estados membros a autonomia para a aplicação ou não da pena de morte. Lá, nos estados que optaram pela pena de morte constata-se, claramente, que os crimes bárbaros e hediondos continuam.
Caso a pena de morte fosse um mal necessário, o sistema de Hitler teria dominado o mundo com suas idéias, pois, aquele que não compactuava com suas ideologias, era eliminado sem perdão. Prova-se aí que a pena de morte é um mecanismo para tornar fácil a administração, pelos incompetentes.
Qual é a solução ou o remédio para essa chaga aberta em nossa sociedade? Ora, nada mais que um sistema Judiciário eficaz e que se façam cumprir as leis em qualquer segmento da sociedade. Prisões apropriadas para a recuperação dos infratores, pois as que o Estado possui são verdadeiras escolas profissionalizantes do crime.
Um Estado que não possui a capacidade, mínima possível, de implantar um sistema penitenciário que vá ao encontro das reivindicações da sociedade, é um Estado em plena decadência e ineficaz quanto ao sistema de segurança. Vai daí, os sistemas optarem pela eliminação pura e simples dos que atrapalham o ''bom'' andamento dos administradores da nação.
Simples, não? Sendo assim, quando alguém praticar um crime qualquer, contra nossa pessoa ou contra o próprio Estado, teremos o direito de fazer o mesmo? Claro que não! Devemos buscar a justiça. Mas, pergunta-se a todo o instante: cadê a justiça? A justiça está no bojo de cada um de nós. O Estado faz o seu cidadão.
Temos que nos apegar à velha frase: um crime não justifica o outro!!! Sabemos, também, o quanto é difícil e inaceitável a morte, natural ou não, de um ente querido, pois muitos de nós já passaram por isso. Vivemos em uma sociedade extremamente complexa e cheia de paradoxos. Daí, portanto, surge a figura do Estado para administrar essa complexidade, bem como os paradoxos existentes. Por isso, nós cidadãos comuns elegemos pessoas para dirigir o Estado, seja no Judiciário, Legislativo e Executivo. Esses componentes terão que ter o brilhantismo necessário para encontrar uma saída para tais disritmias societárias. Matar é a solução mais fácil que existe, porém, é a prova da incompetência e da falência de um sistema democrático que todos buscamos.
Prova disso tudo está nos EUA. Dos 50 estados membros existentes, 32 já tiveram a pena de morte adotada. Hoje, porém, apenas 13 aplicam tal lei e os crimes continuam sem parar.
A verdade é uma só: vivemos em uma sociedade administrada por pessoas hipócritas.
GILBERTO JORDÃO é professor universitário em Maringá

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