ESPAÇO ABERTO
Como sofrem os piores alunos
Davrison de Abreu Anselmo
No meu primeiro ano de atividade no magistério, tive um aluno, que até hoje, eu o considero o mais atípico de todos. Era muito eficaz, educadíssimo, estudioso e tinha as melhores notas da turma. Pesquisador e líder nato. Quase nem se notava que ele era um garoto muito pobre, a não ser pelas roupas muito usadas e pelo kichute que calçava. Para completar, a mãe tinha problemas de saúde e o pai vivia de pequenos serviços, os ditos bicos, e morava de favor numa pequena casa cedida pela patroa da sua mãe. Na sala de aula, ele tinha o costume de ler revistas, jornais, livros, etc, porém, quando eu entrava, ele abria o caderno e colocava, o que estivesse lendo, sob a carteira, quase de forma automática.
Com o passar do tempo, ele já não mais guardava os seus materiais de leitura. Um dia, depois de uma avaliação, pedi o seu caderno e, pra minha surpresa, não tinha nada escrito nele. Claro que perguntei a razão. Ele, com a sua costumeira calma, disse que não tinha necessidade de copiar, ele conseguia ter tudo em mente. Eu fiquei sem saber muito bem o que fazer, primeiro pela inexperiência como mestre, outra, pelo fato em si. Aproveitei o ensejo e solicitei a revista que ele estava lendo.
Aí a surpresa foi maior ainda. Era simplesmente a Times. Engoli seco. Faltou-me ar. Mas, tomei coragem e perguntei se ele sabia inglês. Timidamente me respondeu, que estava estudando sobre manipulação de softwares e que não encontrava nada em revistas brasileiras. Eu, estático, sem saber do que se tratava, (sem saber nada de inglês e muito menos o que era software), mas, como todo bom professor iniciante, não ousei perguntar de que tratava tal assunto, afinal, quem era o professor ali. Ele também ficou surpreso. Pois eu, não o mandei guardar aquele material estranho à matéria e copiar o que interessava.
Sabe a lição que tiro desse episódio? Os piores alunos são aqueles que sabem mais, ou que são mais inteligentes do que os seus mestres (esses pupilos sofrem, e quanto!). Mas, infelizmente, pela superlotação das salas , não conseguimos detectar a todas as mentes brilhantes que em nossa frente se sentam, às vezes, durante anos, e que sem querer, os fazemos meros copistas ou pior, reprodutores de conhecimentos, que nem nós, verdadeiramente dominamos.
DAVRISON DE ABREU ANSELMO é professor em Ibaiti
O crepúsculo do macho
Calvino Coutinho Fernandes
Vivemos em uma sociedade adolescente que idolatra o corpo jovem e marginaliza aqueles que não estão produzindo, principalmente as crianças e os velhos. Afinal, somos consumistas e narcisistas, pois ter é mais importante que ser e o poder econômico está acima da dignidade. Para agravar a situação dos que perambulam na Idade do Lobo surgiu uma praga social chamada aposentadoria compulsória que expulsa o homem da sociedade de consumo para as sombras abjetas dos improdutivos.
Ao atingir a meia-idade o indivíduo sofre pressões de ordem biológica, pois é evidente que o corpo já não é o mesmo da juventude; é submetido a pressões psicológicas pois tem uma clara percepção da sua finitude e limitações, mas o grande obstáculo a ser vencido é o preconceito que vai se tornando mais e mais cruel à medida que a Terceira Idade mostra a sua face enrugada.
Nossa civilização judaico-cristã fez uma salada na qual não se pode separar sexo de reprodução como se fôssemos uma linha de montagem, onde os produtos entram por um lado e bebês saem pelo outro. Ora, de uma vez por todas, todos sabemos que o sexo na esmagadora maioria das vezes é usado para o prazer.
Recentemente uma senhora de 70 anos preocupada contou-me que o seu marido de 76 anos a procurava duas a três vezes por semana e queria saber se isto é normal. Tranqüilizei-a e sugeri que desfrutasse da vitalidade do seu garanhão. É normal, o sexo é sempre prazeroso, uma forma de comunicação fantástica que revitaliza o dia a dia, injeta sangue novo nas emoções e expulsa a esclerose da rotina.
O homem é criado como uma máquina genital e a penilatria sempre foi estimulada. Ora, uma máquina não pode falhar e quando este super-homem de papel percebe o mais leve indício de falência fálica ele treme nas bases, se desespera e o pânico instalado perpetua a falha e ele se vê envolvido pela tragédia da disfunção erétil. É um beco sem saída pois a parceira não pode saber, os amigos menos ainda. O que todos vão pensar?
Não se desespere, hoje a disfunção erétil é apenas mais uma das muitas disfunções que encontram solução na sexologia, através de uma reeducação sexual o homem volta gradativamente a desfrutar de uma ereção plena e prazerosa e geralmente sem a necessidade de medicamentos.
Precisamos redefinir a sexualidade do homem idoso. Ela não é pior e nem melhor do que na juventude, ela é apenas própria da idade. A ereção demora mais a ocorrer, o líquido ejaculado é bem menor. Tudo isso não impede o prazer, o carinho e a união daqueles que já construíram com amor o afeto que une eternamente.
CALVINO COUTINHO FERNANDES é terapeuta sexual e ginecologista em Londrina





