ESPAÇO ABERTO
Brasil mostra outra cara
Marlene Ana Kiewel
O caos em que determinados setores da sociedade enfrentam não é segredo para ninguém. Crise na saúde, educação, segurança, problemas urbanos e rurais e assim a lista vai se alongando.
Seria ingênuo acreditar que alguns leitos a mais nas UTI's resolvem o problema da saúde. A questão não é micro ou localizada, é nacional.
Continuamente teoriza-se, reflete-se, escreve-se sobre as questões emergenciais, tanto que acreditamos conhecer as soluções. Que esta prática continue. O diálogo ainda é e continuará sendo caminho para o entendimento, para o encaminhamento de soluções das questões que atingem a maioria do povo.
Urge praticar tantas soluções já pensadas. Práticas isoladas? Tais como ''eu faço a minha parte'', amenizam, não solucionam. Raramente contagiam, não criam interdependências. É indispensável uma atitude nacional, com o comprometimento de toda sociedade organizada e a coragem de assumir um paradigma benéfico a todos no atendimento das necessidades básicas, independente das tendências de cada grupo ou cidadão. Os conceitos praticados até agora, evidenciaram, não são eficazes.
Se o cuidado, a sociabilidade são características humanas, presume-se que toda pessoa faz parte da sociedade humana; indivíduos ou grupos comprometidos, atuantes, indiferentes, alienados ou não, todos são agentes construtores da realidade que está aí. Vale lembrar que, quanto maior a formação e a informação, maior a responsabilidade na construção histórica.
Se desejamos construir uma nação verdadeiramente cidadã, é imprescindível que todos dialoguemos e construamos juntos o sonho de uma nação com um mínimo de problemas sociais que afinal acabam afetando a todos, ricos ou pobres, instruídos ou não. Deixemos de lado estigmas, ideologias, diferenças. Respeitando a unicidade de cada um na diversidade cultural do povo brasileiro, sentemos na mesma mesa: latifundiários, sem-terra; patrões, empregados; comunidade, professores; MST, UDR; PT, PL; encontrando juntos soluções para as questões que nos afligem. Afinal os problemas sociais retratam a sociedade como um todo e não tem partido, tendência política e muito menos ideologia.
MARLENE ANA KIEWEL é historiadora e escritora em Curitiba
Metamorfose do político
Gilberto Jordão
O processo político de uma sociedade caótica, como a brasileira, não pode ser conduzido da forma como se apresenta. O político brasileiro troca de partido como se fosse uma peça de roupa qualquer.
A paranóia é tanta que o próprio partido que sustenta o governo atual abandonou seu velho discurso de isolar, ou seja, de romper com o FMI.
Na verdade, não vivemos uma democracia, mas sim uma verdadeira disputa pelo controle governamental. Pois o que estamos presenciando é uma disputa dos partidos por políticos como seus aliados. Quem, antes, era do partido de sustentação do governo FHC hoje está sustentado o governo que ontem era oposição. Deu para entender? Está difícil!
É inaceitável a postura do político que usa desse artifício para se beneficiar. Isso vai de encontro agressivo ao interesse público. Que moral tem esse político para falar dos indivíduos com vocação assassina, ladrões contumazes, traficantes, estupradores, etc? Nenhuma!
Tudo isso deixa explícito a incompetência do nosso sistema. Há de se fazer uma pergunta: será que o político brasileiro está amadurecido politicamente para nos representar? O que se vê é o cinismo reinante em todos os escalões. É tudo farinha do mesmo saco. Só para ilustrar melhor nosso pensamento vamos a um exemplo explícito e bem claro: o atual presidente do Senado, José Sarney, sempre fora adversário tenaz do PT e Lula, seu antípoda. Apoiou ferozmente Fernando Collor e FHC. Passou vinte anos apoiando os militares e hoje, como vemos, é o braço direito do seu antigo algoz, Lula. Coisas do Brasil!
O Partido dos Trabalhadores aderiu à política esdrúxula de se governar para poder aprovar as leis que antes o mesmo PT era contra. O povo está com a guilhotina no pescoço, pois o atual governo se rendeu aos incrédulos de outrora.
Observamos, com tristeza, que as amarrações dos partidos com o atual governo estão sendo feitas em forma de negociata. É isso mesmo. Estão sendo feitas como se fosse um leilão em busca de cargos para acomodação das militâncias.
Com a formação desse bloco pró-governo, os oposicionistas estão sendo considerados chatos e indesejados. Há até ameaça de expulsão do partido. Ora, que democracia é essa? Parafraseando Josias de Souza (Folha de S. Paulo): ''O PT no poder ganhou orelhas de lobo, focinho de lobo e dentes de lobo''. O povo continua sendo a vovozinha frágil e inocente, nesse esquema todo.
O Partido dos Trabalhadores sempre trouxe em seu bojo a coerência no combate à ditadura, ao desenvolvimento desigual e seus efeitos, à tradição de subalternização e desumanização do pobre e do oprimido. Não obstante, após sua posse, Lula deixa transparecer sua utopia absoluta.
Está se formando um grande bloco para governar o País. Esse bloco chama-se oligarquia e não democracia, infelizmente. É a verdadeira metamorfose ambulante na política e, principalmente, nos políticos. Eles estão certos ou nós estamos ultrapassados? Eis a questão!
GILBERTO JORDÃO é professor universitário em Maringá





