ESPAÇO ABERTO
A Sociedade Rural do Paraná
Edson Neme Ruiz
Implantada sob a inspiração de valorosos homens da época, a associação ruralista do passado e agora convertida em Sociedade Rural do Paraná (SRP) é hoje mais que um patrimônio paranaense, pois tem amplitude nacional e é conhecida também em outros países. A menção a esse fato se fez pela oportunidade em que se comemora os 57 anos de existência da entidade, que é apenas 11 anos mais jovem que o município de Londrina.
A então Associação Rural de Londrina começou com Hugo Cabral, que foi seu primeiro presidente e também prefeito da cidade, vereador e deputado federal. Eram os tempos gloriosos da cafeicultura, que tinha na linha de frente, como grandes baluartes em defesa de suas causas, a Associação Rural e outras entidades regionais. O café era, naqueles anos, o grande sustentáculo da economia paranaense e nacional.
A primeira exposição agropecuária aconteceu em 23 de julho de 1955, no mandato de Antonio Fernandes Sobrinho como presidente da Associação, ele que, também, viria a ser prefeito de Londrina e novamente presidente da entidade. Essa primeira exposição realizou-se na sede do Jockey Club, à qual compareceu o governador Adolfo de Oliveira Franco. A mostra resumia-se a alguns poucos produtos agrícolas e alguns animais, estes amarrados aos troncos de eucaliptos, pois não havia instalações adequadas.
Depois de Hugo Cabral, foram presidentes da Associação - que mais tarde mudaria o nome para Sociedade Rural do Norte do Paraná e para a atual Sociedade Rural do Paraná - Nicolau Lunardelli, Nelson Antunes Eggas, Raphael Ferreira Rezende, Nelson Maculan e Américo Ugolini.
Em 1960 tem início a era de Omar Mazzei Guimarães, que comandou a entidade por 9 anos. Foi ele quem, com o apoio do governador Ney Braga e destacados empresários de Londrina, adquiriu o terreno onde hoje está a sede da SRP e o Parque Governador Ney Braga - daí o nome. O Parque foi inaugurado em 1964, e um ano depois a Exposição receberia a visita do presidente Humberto de Alencar Castelo Branco.
Depois foram presidentes da entidade Francisco Sciarra, Manoel Campinha Garcia Cid, Luiz Roberto Neme, Antonio Fernandes Sobrinho, Jamil Janene, Brazílio de Araújo Neto, Luiz Meneghel Neto, José Tibúrcio e Samir Cury Eid - vários deles com mais de um mandato. Em maio de 1988 foi eleita a chapa encabeçada por Francisco Luiz Prando Galli, tendo o autor deste artigo como vice. Foram dois mandatos seguidos, até que em 2002 assumimos a presidência.
Todos esses homens e as respectivas diretorias fizeram da entidade uma respeitável instituição, ao tempo em que transformaram a Exposição Agropecuária e Industrial o maior evento anual do gênero na América Latina, sendo hoje uma grande vitrine de negócios e das questões relacionadas com a terra. Tanto a Sociedade Rural é importante que, na última Exposição, compareceu o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, já em nossa gestão.
EDSON NEME RUIZ é presidente da Sociedade Rural do Paraná, com sede em Londrina
Pobre política
Frei Betto
Pobre política dos tapinhas nas costas, mãos ansiosas por punhais sob sorrisos amarelos desenhados nos potes de mágoas derramados no coração. Pobre política do ''ouvi dizer'', das maledicências esgueirando-se por gabinetes, a corroer dignidades, esgarçar patrimônios morais e aspergir cizânia nos campos da decência.
Pobre política da pose maquiada para a foto, abraço descosturado de afetos, olhar altivo, o papagaio de pirata empoleirado sobre o alpiste da fatura de votos. Pobre política das entrevistas repletas de palavras e vazias de sentido, dos discursos adjetivados de promessas vãs, das recepções encharcadas de venenos retóricos, das audiências purgatoriais, das homenagens alinhavadas, às costas, pelo próprio homenageado.
Pobre política que soma votos subtraindo princípios, faz conchavos inconfessáveis e promove acertos guardados no cofre de sigilos inomináveis. E das coligações órfãs de projetos, do balcão empregatício, dos presentes perfumados de sedução.
Pobre política da clonagem de salários e remunerações, vantagens e voragens, garimpeira de influências e alpinista luxenta de quem abomina a própria origem.
Pobre política da voz elevada rebaixando secretárias e contínuos, da máscara da autoridade cuspindo fel, da pessoa refém da função, do apego desmesurado ao poder, da mendicância cotidiana de atenções e agrados.
Pobre política das portas trancadas à turba que perturba, dos tapetes alérgicos à poeira das sandálias e botinas, das cerimônias que içam o ego e afogam o dever de bem governar.
Pobre política a sacrificar, no altar da pátria, a vida em família, o lazer, as amizades. E que impede o prazer de nada fazer, só ser. Pobre política do corporativismo eleitoreiro, do repasse escuso de recursos, do partido de aluguel, do caixa dois e do silêncio dos inocentes. Pobre política da conquista iníqua de bens sonegados aos pobres, das mesuras cínicas, das mulheres convidadas a emoldurar a sala, da atitude déspota de quem sequer cumprimenta ascensoristas, motoristas, porteiros e garçons.
Pobre política destituída de conteúdos históricos, atolada na rasteira trivialidade de costuras inócuas, indiferente ao sacrifício e à luta de tantos que padeceram para imprimir à convivência entre humanos a marca gêmea da liberdade e da justiça.
Pobre política da competição mesquinha, cega aos horizontes utópicos, enredada na burocracia farisaica que coa mosquitos e engole camelos, farsa pusilânime que, no proscênio, esconde a tragédia de tantas esperanças fraudadas.
Pobre política dos discursos desajuizados, proferidos na veemência despida de ética, ecoando rancores. E das aleivosias moldadas pela conveniência, disfarçadas de firmeza enquanto os pés chafurdam no lodo das negociatas.
Pobre política da veneração desmesurada ao poder, do desfibramento ideológico, da despolitização dos eleitores, da indigência de estratégias imunes ao calendário do próximo pleito. Pobre política da prepotência de quem ignora que cargos não alongam estaturas, nem a moral, e enche o peito de virtuais medalhas concedidas pela própria vaidade de quem se julga acima da média.
Pobre política insensível à dor inaudível, ao tresloucado no trampolim do
desespero, ao endividado, ao demente, e ao que, embaixo do viaduto, aguarda a
intervenção divina. Pobre política? Podre política.
FREI BETTO é escritor e assessor especial da Presidência da República para o Fome Zero





