ESPAÇO ABERTO
Fórum sobre lixo
Daniel Steidle
Conta uma passagem na história ambiental brasileira, de Octávio Marcondes Ferraz, diretor da Eletrobrás em 1964, que havia planejado uma barragem menor em Itaipu, para salvar Sete Quedas. Queixava-se Octávio do sigilo e arbitrariedade que possibilitaram a tragédia (a destruição das Sete Quedas); somos, escreveu ele, ''um país de fatos consumados e contribuintes submissos''.
A frase, quase 40 anos depois, continua atual para muitas situações que afetam o meio ambiente. Como exemplo, o problema do lixo que na decisão, de como deve ser solucionado, continua basicamente nas mãos de políticos e vendedores de tecnologias. A vida política partidária, cada vez mais se resumindo a um processo eleitoral, encontra muita possibilidade de ganhar votos ''resolvendo'' o problema do lixo contratando ''especialistas em tecnologias de primeiro mundo''.
Um próspero e disputado mercado, com revistas especializadas, oferecendo desde tambores coloridos para a coleta seletiva do lixo, a usinas de reciclagem e compostagem, incineradores de lixo e algumas engenhocas futurísticas, onde máquinas substituem, na lógica do lucro, o trabalho humano mais elementar. Nesta lógica um envolvimento direto e independente da população e a redução do lixo não são interessantes. Como também não é interessante nesta lógica a existência de tantos que sobrevivem de reciclar material do lixo. O lucro acaba sendo de poucos.
Analisar este quadro significa ''democratizar'' a questão do lixo através de fóruns por exemplo. Vamos escutar o que cada vendedor de tecnologia tem para oferecer e o que os estudiosos, catadores de lixo, as donas de casa, enfim, todos nós ''produtores, consumidores e geradores'' temos para dizer. Escolher, significa ter informação de diversas fontes e exercer e sofrer crítica. A sociedade precisa conquistar seu direito de escolha. Sai ganhando também o bom político e a boa tecnologia. Lucro para muitos!
Portanto, é um investimento viável pensar em fóruns para debater o lixo ou qualquer outro assunto ambiental, social ou do interesse da sociedade. Ainda que hoje os fóruns democráticos possam parecer remotos, com as atuais políticas públicas de curto prazo dos ''fatos consumados'', está no poder do cidadão sair desta situação com a força do seu voto. O político que insistir na velha fórmula de decidir, sem a participação ativa e direta das pessoas, não ganha mais nosso voto, está fora!
Vamos melhorar as nossas vidas através dos ''fóruns'', amadurecer, resgatar sentimentos como a solidariedade, a compreensão e a tolerância. Vamos superar nossas barreiras como a timidez, o desinteresse ou a auto-exclusão por sermos ''não estudados''. Quem sabe, também o lixo nisso tudo, poderá virar a ser um assunto apaixonante!
DANIEL STEIDLE é mestrando em Geografia, Meio Ambiente e Desenvolvimento na Universidade Estadual de Londrina
Jovens na modernização do campo
Amélio DallAgnol
As constantes transformações sociais, econômicas, políticas e tecnológicas que modificam cada vez mais rapidamente o ambiente que nos cerca exigem das pessoas mudanças de igual teor e intensidade, para não ficarem à margem do desenvolvimento que essas transformações representam. Nesse contexto, alguns indivíduos reagem mais rapidamente. Os jovens, por exemplo, se adaptam mais facilmente que os adultos aos novos cenários.
Mudar costumes, crenças e conceitos já arraigados não é fácil e vai-se tornando mais difícil à medida em que as pessoas envelhecem. Com o avançar da idade, essas pessoas se fixam em valores do passado e temem os riscos que toda a mudança representa. Também, com maior idade, as pessoas assumem mais compromissos sociais e se tornam mais sensíveis a um eventual fracasso de uma iniciativa malsucedida. Por essa razão, os adultos tendem a preferir a segurança do status quo, ao provável êxito de uma mudança arriscada.
Com os jovens não é assim: por sua pouca idade, eles ainda não protagonizaram experiências de vida que os transformassem em depositários de idéias e conceitos caducos, estando mais inclinados a aceitar as iniciativas e os desafios de um novo empreendimento. A cabeça de um jovem é mais maleável: é de pequenino que se torce o pepino, ensina a sabedoria popular.
Os jovens podem expor-se mais ao risco de um mau negócio, porque, na eventualidade de a hipótese concretizar-se, eles sofrem menores conseqüências: suas responsabilidades são ainda pequenas e contam com mais energia e disposição para suportar o impacto negativo de uma frustração, além de terem toda uma vida pela frente para a recuperação.
A propósito da juventude rural como potencial agente de transformação, a Cooperativa Integrada do Paraná promoverá, em Londrina, nos dias 24 e 25 de julho próximo, o 12ªJovencoop Encontro Estadual de Jovens Cooperativistas , iniciativa elogiável, que, certamente contribuirá para despertar no jovem participante do encontro o desejo de repetir, na propriedade dos seus familiares, experiências bem-sucedidas relatadas por companheiros de jornada.
No entanto, sabe-se que não será fácil ao jovem empreendedor, por mais sincero e correto que esteja em suas propostas de mudanças, obter, dos familiares mais adultos, a autoridade de que precisa para executá-las na propriedade da família: a tendência dos mais adultos é menosprezar as idéias revolucionárias dos mais jovens.
Talvez por causa disso, muitos pequenos produtores rurais, desiludidos com a queda da renda familiar verificada ao longo das últimas décadas e enfrentados à sua própria incapacidade de modernizar o seu empreendimento agrícola, viram-se marginalizados no próprio campo e preferiram enfrentar a incerteza da vida urbana, onde, em inúmeros casos, a fome os transformou de pacíficos trabalhadores em violentos cidadãos urbanos. Quando não eles próprios, filhos seus encontraram morte violenta ou foram marginalizados pela miséria.
A periferia de Londrina é um bom exemplo desse êxodo involuntário, que, eventualmente, poderia ter sido evitado se o potencial de inovação que os jovens possuem tivesse sido melhor aproveitado, privilegiando as suas iniciativas, ao invés de favorecer a vontade dos adultos, sempre mais reacionários a mudanças, muito necessárias para viabilizar a produção no contexto da nova economia de mercado.
A energia e a audácia, características inerentes ao jovem, quando bem canalizadas, constituem-se na cunha que deslocará o quietismo da tradicional força de trabalho do campo, demasiadamente aferrada a retrógrados modelos de produção. Os jovens, além de mais receptivos à inovação, são mais ousados: o risco lhes representa um desafio e esse desafio, um estímulo. O futuro não é o que a gente teme. O futuro é o que a gente ousa (Carlos Lacerda, político brasileiro). A propósito dos R$ 5,4 bilhões prometidos pelo atual governo aos agricultores familiares, a juventude rural está sendo envolvida na estratégia de melhor utilização desses recursos?
AMÉLIO DALLAGNOL é pesquisador na Embrapa





