A pedra no caminho

Luiz Meneghel Neto

Nos últimos dias, a Organização das Nações Unidas (ONU) nos deu uma notícia muito boa e que, ao mesmo tempo, vai inquietar o cenário internacional: projeções feitas pela entidade apontam que o Brasil pode ser, nos próximos 12 anos, o maior produtor agrícola do mundo. Aqui, penso que o papel do governo federal e das lideranças do setor agropecuário será fundamental para que possamos vencer barreiras sanitárias ou novas medidas protecionistas, que serão impostas aos nossos produtos.
A Reforma Tributária, o nosso posicionamento sobre a ALCA e a constante luta contra os subsídios agrícolas adotados pela União Européia e pelos Estados Unidos, são pontos-chaves para que a nossa inserção no mercado internacional continue a ser feita de forma corajosa e com bastante coerência.
É importante salientar que o Brasil vem ganhando importantes ''fatias'' do comércio agrícola mundial, como a Rússia e a China principalmente no que se refere ao complexo carnes e soja. Mas, em contrapartida, o que temos verificado também é uma inércia das nações mais ricas com relação a uma eventual redução do protecionismo agrícola. Estudos feitos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que em 2002, o total dos subsídios agrícolas nos países do bloco, atingiram o volume de US$ 318 bilhões. Tudo isso, com mais um fator agravante: os setores mais afetados por esta política agrícola são aqueles em que o Brasil apresenta maior competitividade internacional.
Outra questão é que, enquanto os produtores rurais europeus e norte-americanos recebem fartos incentivos, os agropecuaristas brasileiros são obrigados a custear a aquisição de adubos, suplementos minerais, grãos e produtos veterinários todos cotados em dólar , e com a incidência de diversos impostos, que ocasionam o temível efeito ''cascata''.
No momento em que o nosso País se projeta como uma grande força do setor agropecuário e começa a incomodar outras nações, creio que o Brasil precisa aprender a ditar as regras do jogo. Barreiras tarifárias como a praticada pelos EUA com relação ao suco de laranja devem ser novamente discutidas nas rodadas de negociações, e se for o caso, precisam ter a sua extinção exigida. É inadmissível que as nações mais ricas alcancem a liberalização dos mercados externos, sem oferecer alternativas viáveis para os países em desenvolvimento.
Quanto à Reforma Tributária, penso que ela é necessária para o fortalecimento da nossa economia, mas desde que, em todas as esferas governamentais, não haja o aumento da carga tributária. Considero, entretanto, que é preciso implantar, entre outras ações mais concretas, inúmeros benefícios fiscais para as exportações brasileiras e reduzir significativamente os tributos sobre a folha de pagamento.
Portanto, acredito que esta é a hora de nos impormos, tanto no âmbito nacional quanto no internacional, e aproveitarmos para sermos taxados de uma só vez como a grande pedra no caminho das nações mais ricas. Depende apenas da boa vontade dos nossos governantes e de continuarmos demonstrando que temos competência para gerar muitos empregos e garantir o superávit da balança comercial brasileira.
LUIZ MENEGHEL NETO é presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Limousin

A questão agrária

Edson Neme Ruiz
  
O crime organizado, nas grandes cidades, e as invasões de propriedades rurais caracterizam ‘‘governos’’ paralelos, imperando na vida pública brasileira e cuja ação já está se tornando difícil combater. Esses movimentos não são diferentes do que ocorre, por exemplo, com as forças organizadas da guerrilha colombiana e que, somando-se ao tráfico de drogas, inviabilizam a governabilidade. Em nosso País já se vive situação idêntica, porque nos centros urbanos de maior densidade os cidadãos estão na mira dos bandidos, e no campo os produtores rurais também já não têm segurança, pelo temor dos invasores.
  Não é correto dizer-se que o MST é constituído integralmente de trabalhadores rurais sem-terra, dando a falsa impressão de que são todos agricultores, porque na verdade há uma volumosa massa de infiltrados, que nada sabem da lida do campo, mas engrossam a corrente, na crença de que irão ganhar um pedaço de terra, seja para explorá-la ou para vendê-la. São centenas deles que se juntam durante o dia aos acampados, nas margens das estradas, e à noite vão dormir em suas casas; e dá-se também o inverso: os que tocam os seus negócios normalmente e a certa hora vão para os acampamentos. Eles ali comparecem e permanecem para marcar presença e assim ‘‘inscrever-se’’, na esperança de serem contemplados com algum benefício futuro, embalados pelo discurso dos líderes.
  Que este é um problema social grave, não se discute, mas é também um problema político e de segurança de iguais cidadãos, que são os produtores rurais, na maioria classe média e não ‘‘abastados latifundiários’’ como deixam supor as charges equivocadas dos veículos de comunicação. Esses homens da lavoura e da pecuária são os que abastecem de alimentos os mercados; são os que mais geram emprego, a partir do campo e em toda a extensão do agronegócio; são os que robustecem a pauta de exportações e trazem as divisas de que a nação precisa.
  Ações e reações armadas não constituem resposta a este delicado problema social, representado de um lado pelos autênticos agricultores sem-terra, e de outro pelos que precisam defender suas propriedades – ou será simplesmente trocá-las de mãos e criar um problema paralelo, com novos sem-terra. Mas os governantes deste País precisam debruçar-se sobre o problema e dar início à verdadeira reforma agrária que se deseja e não apenas promovendo assentamentos sem um projeto de sustentação técnica, mas com todo o acompanhamento do extensionismo rural, enfim uma política agrícola orientada, desde a produção até o escoamento e à comercialização das safras.
  A reforma agrária, ademais, há que ser abrangente e feita com inteligência, estribada em projetos técnicos e não em assistencialismo e acomodação política. Precisará contemplar também os que já se encontram na terra e carecem de políticas públicas definidas. Porque tudo o que se assentou, no Brasil, está longe de ser uma fórmula consistente para o problema agrário. Se convocada, a classe ruralista – tanto a constituída dos médios produtores como a dos que produzem em escala – estará pronta para cooperar com o governo na solução da questão da terra, dando sua contribuição e indicando caminhos já trilhados pela sua experiência.
EDSON NEME RUIZ é presidente da Sociedade Rural do Paraná

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