ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de julho de 2003
Davrison de Abreu Anselmo 
O avaliar
Sempre quando inicio a correção de provas vem-me à mente um fato que praticamente mudou o meu jeito de avaliar e, principalmente, de como olhar o aluno no momento em que está sendo avaliado.
Eu tive um aluno, (por felicidade), que tinha enorme dificuldade para aprender matemática. Misturava tudo. Trocava sinais. Não conseguia acertar quase nada por mais simples que fosse. Álgebra então, nem pensar. Tão logo percebi, tais dificuldades, comecei a dar-lhe atenção especial, a utilizar-me de táticas pedagógicas, até de simpatia e tapinhas nas costas. Porém, parecia, que quanto mais eu me empenhava em mostrar-lhe que eu estava interessado nele e que gostaria, imensamente, que aprendesse um pouco, pelo menos um pouco, do conteúdo que ora estava sendo ministrado, a situação piorava, as notas eram mais baixas ainda. Quase desisti dele.
Um dia eu estava de janela (naquela época ainda não havia hora-atividade), comecei escutar alguns gritos do tipo: vai Fábio, olha o Fábio, passa pro Fábio, etc, etc...ou seja, Fábio era o centro das atenções de todos os colegas que se encontravam em quadra naquele instante. E isso me chamou muito a atenção e fui ver o jogo. Lá estava ele, o Fábio, [meu calo], matando a bola no peito, descendo na coxa, rolando na quadra, olhando em todas as direções antes de inteligentemente tocar a bola para o coleginha que se deslocava.
Lá estava ele, entre os adversários, dividindo cada lance, (ganhava todas), orientando os companheiros quanto às posições e os advertindo quando usavam de violência para travar o adversário. De repente, ele foi lançado. Dominou magistralmente a pelota e, antes que ela tocasse o chão, ele bateu e... goooool. Eu vibrei. (De verdade, quase chorei). E ele, num relance, me olhou com um sorrisinho meio tímido no canto dos lábios, como que diz: Foi pra você!.
Naquele instante eu, que nunca consegui passar de perna-de-pau, e que sempre tive a avaliação escolar como o maior de todos os espinhos de minha amada profissão, fiquei imaginando ele, o Fábio, sentado em uma mesinha ao lado da quadra me dando uma bela nota vermelha, meneando a cabeça e dizendo: esse eu acho que não vai dar em nada.
DAVRISON DE ABREU ANSELMO é professor em Ibaiti
O amor engajado
Por quantas vezes, já não ouvimos esta incansável pergunta: ''o que isso tem a ver comigo?'' Soa quase banal o que vou dizer mas, todos os dias, em diferentes lugares, de diferentes formas, é possível ouvir pessoas reproduzindo, constantemente, esta e outras expressões de desprezo pela situação do próximo, sempre com aquele velho pensamento: ''já tenho uma quantidade de problemas suficiente, portanto não tenho também que ficar me preocupando com os problemas dos outros''.
Mas e quando o problema é social, ou seja, de responsabilidade de todos, será que a coisa muda? Não, pois a desculpa é sempre a mesma: ''a culpa é dos políticos...'' ou ''nada que eu faça será suficiente para mudar a situação''.
Alguém poderia até dizer: mas isso que você está colocando é muito óbvio! É sim, e por ser tão óbvia, a questão acaba sendo praticamente ignorada. E para aqueles que se dizem cristãos, o que pode ter a ver com estes, ou, melhor dizendo, ''conosco'', por exemplo, o fato de que no mundo há mais de 6 bilhões de pessoas, muitas delas padecendo de fome e miséria, outras por violência, e tantas outras caminhando para o ''abismo'' por indiferença ou desconhecimento do amor de Cristo, e muitas vezes por negligência da igreja que deveria acolhê-las? Até que ponto, a amplitude do amor de Deus, por toda a humanidade, representado na pessoa de Jesus, tem nos impulsionado a abandonar nosso egoísmo e a nos sensibilizar com o clamor que vem do próximo?
No Antigo testamento, em provérbios 17:17, há um precioso ensinamento sobre o ''amor engajado'', isto é, o amor prático, que se sensibiliza e se mobiliza: ''Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão''. Pelo menos três lições práticas, podemos abstrair deste texto: 1) O amor engajado acontece quando deixamos de olhar apenas para os nossos próprios problemas; 2) O amor engajado acontece quando nos fragilizamos para encontrar o próximo na dimensão de seu sofrimento; 3) Quando nos tornamos co-participantes dos problemas e aflições dos outros, abençoamos e somos abençoados.
O que Deus quer de nós não é muita coisa. Não precisamos ser ingênuos, a ponto de achar que podemos abraçar o mundo todo, e nem cínicos em pensar que, no mundo, tudo está perdido. Podemos, talvez, seguir a simples filosofia de um indiano, chamado Wai Sin: ''não posso amar um milhão de pessoas, assim, começarei com uma''. E por que não dizer algumas.
JONATHAN MENEZES é estudante de História na Universidade Estadual de Londrina e membro do Movimento Evangélico Progressista (MEP)


