ESPAÇO ABERTO
A rotina de lula
René Ruschel
Aos poucos o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai deixando para trás o período de lua-de-mel para viver a rotina do dia-a-dia. Passado os festejos, a viagem de núpcias, as novidades no novo lar e já tendo tomado conhecimento de todos os presentes que recebeu, é chegada a hora de tocar a vida adiante, afinal, estamos na metade do primeiro ano da sua administração. Uma pesquisa divulgada agora no início do mês de julho mostra que, apesar dos indicadores ainda serem positivos, houve uma queda na aprovação de seu governo e um crescimento na desaprovação: de 75 para 70% e de 13 para 18%, respectivamente.
O mesmo se deu na questão sobre a confiança na figura do presidente: em março último 80% confiavam nele; agora, são 76% os que acreditam. No quesito avaliação geral os números são adversos: o ótimo/bom desceu de 51 para 43%; o regular subiu de 36 para 38 e o ruim/péssimo de 7 para 11%. Os números são frios como qualquer estatística e não podem servir como parâmetro de julgamento, mas valem como um sinal de alerta.
Vítima da própria ânsia, o governo cometeu deslizes políticos naturais àqueles que chegam ao poder movidos por propostas de mudanças, pelas boas intenções ou arrastando uma série de compromissos de todas as matizes. Alguns foram bandeiras do partido ao longo de mais de duas décadas; outros se incorporaram ao programa de governo à medida que a base de sustentação se ampliava.
A aliança era e continua sendo uma colcha de retalhos. A proposta de maior alcance chama-se Fome Zero. Um projeto audacioso que visa atender exatamente a casta social inserida entre a pobreza e a miséria absoluta. Desde a cerimônia de lançamento, no interior do Piauí, até hoje, o programa não passou de uma sucessão de boas intenções. O erro foi não ter analisado com exatidão os riscos e as dificuldades em administrar um país em crise, socialmente desigual e de dimensões geográficas gigantescas. Caso tenha sido avaliado, foi mal feito.
O projeto de reforma da Previdência é outra mudança que encontrou resistências internas no Partido dos Trabalhadores, em parte da CUT e nos servidores públicos, que sempre foram um braço forte de sustentação política. Mas o calcanhar de Aquiles de Lula é, sem dúvida, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). A situação de momento atinge níveis preocupantes e caso não haja uma solução emergencial para conter a onda de invasões, de saques, o Brasil poderá mergulhar numa profunda crise social onde a violência, antes restrita aos grandes centros urbanos, certamente se transformará num rastilho de pólvora com efeitos incontroláveis.
A reforma agrária é uma proposta intimamente ligada à história do PT, assim como não se pode negar que se trata de uma dívida histórica que exige urgência na solução. Sem ela o País não trilhará pelos caminhos da paz, da segurança e do equilíbrio social. O dilema é encontrar um modelo que satisfaça a todos os envolvidos, afinal, o PT deixou a oposição para ser governo, enquanto o MST parece incapaz de entender sua própria importância como movimento.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba
Ato capenga
Abelardo Lupion
Assistimos nesta semana um espetáculo lamentável, o presidente Lula eleito por esmagadora maioria dos brasileiros num ato deplorável colocar o boné de um movimento anárquico, o MST. O mesmo MST que na véspera havia saqueado caminhões, roubando suas cargas, feito reféns, num ato de vandalismo e configurando sua estatura, zombando das leis e da Constituição do País, o mesmo MST que uma semana antes havia invadido praças de pedágio no Paraná feito baderna, agredido funcionários que ganham honestamente o seu sustento.
O mesmo MST que até hoje está com prédios públicos invadidos e em atitude de escárnio declara que só sairá se o governo fornecer cestas básicas, desapropriar terras e no final do mês lhes fornecer salários, sem trabalhar ao contrário da maioria dos trabalhadores brasileiros, e o que é grave, a chantagem explícita contra a nação é atendida pelo ministro José Graziano que fornece os produtos doados pela sociedade, pelas cooperativas, pelos produtores que acreditando na boa intenção do governo se comovem e se solidarizam na luta contra fome.
Hoje no dia de comemoração do cooperativismo, onde no Palácio do Planalto 400 presidentes de cooperativas se reuniram prestigiando o presidente da República num ato de respeito para agradecer às ações feitas neste ano, o ato ficou capenga. Lá não vimos o presidente da comissão da Agricultura, deputado Valdemir Moca, não vimos o presidente da bancada de apoio à Agropecuária, deputado Ronaldo Caiado, não vimos o presidente da bancada de apoio ao Cooperativismo, deputado Moacir Micheletto, e muito menos vimos nossos senadores Jonas Pinheiro e Osmar Dias, baluartes do cooperativismo no Senado, que num ato simbólico do repúdio ao que vimos nesta semana, onde o boné maldito foi colocado na cabeça daquele que representa a todos os brasileiros.
Qual foi o erro dos produtores rurais? Acreditar que as promessas feitas pelo presidente de uma reforma agrária pacífica, dentro da lei, dentro dos preceitos de legalidade, preservando o Estado de Direito? Acreditar que produzindo, exportando, batendo recordes de produtividade seríamos respeitados?
Quando vimos nos jornais milícias sendo formadas pelos desesperados proprietários, que buscam através da Justiça, reintegrações de posse e governadores mal intencionados como o governador Requião do Paraná, que zomba do sistema Judiciário e não fornece instrumentos para o cumprimento da lei, temos que deplorar e lamentar.
Não concordamos com a violência, não concordamos em tomar as leis pelas próprias mãos, acreditamos na Justiça, acreditamos no País, acreditamos na nossa capacidade de produzir, acreditamos no Congresso Nacional que orgulhosamente compomos, e esperamos que o Executivo cumpra a sua parte, respeite o povo brasileiro, cumprindo as leis que jurou defender.
O País clama pela ordem, clama pela paz, clama pela Justiça. Porque ninguém, repito, ninguém está acima das leis.
ABELARDO LUPION é deputado federal, presidente Estadual do PFL Paraná e coordenador da bancada ruralista da Câmara dos Deputados





