ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de janeiro de 2003
Francisca Vergínio Soares 
Violência e estampagem
Francisca Vergínio Soares
Define-se por estampagem o fenômeno pelo qual alguns animais se vêem afastados de sua própria espécie, não se reconhecem a si próprios como parte dessa espécie e não se comporta como tal. Pensemos em um bicho que não sabe ser o bicho que é. Imaginemos em seguida o mesmo caso a passar-se com outra espécie a humana. O escritor Philip Roth faz esta reflexão em seu recente romance A Marca Humana explorando este conceito para tentar compreender as ações humanas.
Em tempos de violência exacerbada o fenômeno da estampagem pode servir para explicar se é que isso é possível a gravidade do comportamento humano em relação ao seu igual. Os sucessivos crimes noticiados têm causado estarrecimento pelo grau de barbarismo e crueldade que têm sido praticados, crimes que caracterizam não apenas a indiferença pela vida de um igual, mas acima de tudo o não reconhecimento de si próprio como parte dessa espécie.
São incontáveis os exemplos de assassinatos praticados de modo cruéis e quase sempre por motivos torpes. Casos como o do índio Galdino queimado vivo, os seqüestros com vítimas sob tortura, marginais que após viciarem crianças e adolescentes, usam-nas como mão-de-obra barata para lucrarem com o comércio da droga, para em seguida eliminá-las, filhos que matam os pais por causa de herança, pais que descarregam nos filhos seu ódio através de espancamentos e abandono, jovens desequilibrados que a socos e pontapés matam gratuitamente, grupos de neonazistas xenófobos e outra vez rapazes acéfalos que para se distraírem repetiram recentemente com outro índio o que fizeram com o índio Galdino. A lista de crimes hediondos e inafiançáveis é infinita, não pára por aqui e demonstra que a violência é um fenômeno humano que lateja dentro de cada um de nós precisando apenas de um motivo qualquer para se manifestar.
Animais criados por muito tempo em cativeiro sofrem a tal estampagem: ganham uma marca humana e deixam que se vá a original, perdem portanto, sua identidade e se domesticam. A recíproca é verdadeira em relação ao ser humano, mas ao contrário, se desumanizam, senão como entender a ferocidade com que exterminam suas vítimas? Esse quadro parece indicar que entramos de fato, usando expressão do psicanalista Jurandir Freire Costa numa cultura de psicopatas ou cultura da delinqüência.
Pondera Freire, o que é o psicopata, senão aquele que, dentro de uma cultura que funciona adequadamente, é cego em relação a valores? O aniquilamento dos artifícios culturais, leia-se dos códigos morais e éticos de uma sociedade, torna impossível a manutenção do sentido coletivo em detrimento do individualismo, este um dos males que têm alimento a violência neste início de século.
Enfim, o fenômeno da estampagem aplicada ao ser humano mostra que o que desnorteia o País hoje é, mais que uma doença, é o sentimento de que fomos lançados de volta a um tempo primitivo e disforme anterior a toda lei, desabafa ainda Jurandir Freire Costa.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais pela PUC/SP e docente da Universidade Estadual de Londrina e da Uninorte
UEM: desafios para 2003
Angelo Priori
O ano de 2003 chegou sob o prisma da esperança e da mudança. Foram essas as palavras mais ditas e comentadas nos últimos dias. Não sem sentido. Com as posses do novo presidente da República e do novo governador do Estado, os brasileiros e paranaenses estão depositando em seus novos dirigentes a esperança de que mudanças e transformações sociais sejam realizadas, para melhorar a qualidade de vida e o bem-estar da nossa sofrida população.
Mas não existem transformação e mudança se não houver participação, diálogo, despreendimento e muito trabalho. Cada um fazendo a sua parte. A sociedade precisa participar dessas mudanças. Nós, da nova direção central da Universidade Estadual de Maringá (UEM), também estamos imbuídos num processo de transformação da UEM em uma universidade cada vez melhor, mais democrática, transparente e que a comunidade possa participar dos seus destinos. Em 2003 trabalharemos para realizar alguns projetos que terão significativo alcance social.
Em primeiro lugar, vamos colocar em funcionamento a nova ala do Hospital Universitário. Nesta ala, com 2.684 metros quadrados de construção, colocaremos em funcionamento mais dez leitos de UTI, sendo quatro leitos adultos e seis leitos neo-natal. Além disso, o Pronto Atendimento do hospital será remanejado para o novo espaço, proporcionando melhores condições de atendimento aos pacientes e melhores condições de trabalho para médicos, enfermeiros e pessoal administrativo.
Um segundo projeto a ser desenvolvido será o preenchimento das vagas ociosas dos cursos de graduação da UEM, através de um processo de seleção de transferências externas. Atualmente a UEM tem, aproximadamente, 700 vagas ociosas.
Um terceiro projeto é a mudança no sistema de vestibular. A UEM detém um know-how invejável no processo de idealização, realização e aplicação de concursos vestibulares. Hoje o sistema da UEM é um dos melhores do País, tanto nos aspectos pedagógicos, como administrativos e de segurança. Porém, a universidade precisa estar aberta às novas possibilidades de ingresso, como por exemplo o Enem e a avaliação continuada do ensino médio.
Um quarto projeto é a nossa inserção na comunidade. Em nossa cidade e região já existem o Conselho de Desenvolvimento de Maringá (Codem) e o Instituto de Desenvolvimento Regional (IDR), onde a UEM tem participado privilegiadamente e vem contribuindo significativamente com esse processo de desenvolvimento da comunidade local e regional. Agora queremos inverter a direção. Queremos que a comunidade possa participar da vida da UEM, contribuindo com os destinos da nossa instituição e ajudando aprimorá-la. Nesse sentido estamos discutindo a formação de um conselho consultivo, integrado por membros da UEM, da comunidade empresarial, de trabalhadores e da sociedade civil organizada, com o intuito de aprimorar o relacionamento universidade-sociedade.
ANGELO PRIORI é doutor em História e reitor em exercício da Universidade Estadual de Maringá (UEM)


