ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de dezembro de 2001
René Ruschel 
''Como o PFL pode dispensar uma candidatura própria com alguém que tem 20% das pesquisas?'', deputado Michel Temer, presidente do PMDB
No pôquer, como na política, blefar pode ser parte do jogo. Ao redor da mesa, os jogadores costumam demonstrar firmeza nas palavras, serenidade nos atos e convicção nos gestos. O processo político visando a sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso vive um estágio semelhante. Os partidos começam estabelecer as primeiras negociações buscando interferir, cada um a seu modo, na escolha dos candidatos, da mesma forma que procuram ocupar espaços e garantir fatias de poder que lhes sejam compensatórios num provável governo a partir de 2003. No jogo, tanto do pôquer como da política, o xis da questão está em saber o momento exato de recuar, afinal, qualquer aventura sempre está situada no limite entre o fracasso e o êxito. Neste momento, escolher as cartas ou candidatos é a mais árdua das tarefas, pois em qualquer das situações o desempenho dos jogadores será fundamental para a vitória ou derrota.
No caso do candidato oficial, o imbróglio é ainda maior. Até 90 dias atrás o que se discutia na base de apoio do governo era qual o nome do PSDB que seria o cabeça de chapa, ou seja, candidato à presidência da República. A vice estava reservada para apaziguar os ânimos mais exaltados dos partidos que dão sustentação ao governo. Os tucanos conduziam todas as articulações na certeza que PFL e PMDB viriam a reboque.
O que não estava na ordem do dia era um fator exógeno ao processo: a candidatura da governadora do Maranhão, Roseana Sarney. Num primeiro momento, era tida como uma excelente opção para vice jovem, mulher, nordestina, governadora, filha de um ex-presidente da república com influência política e identificada com o governo FHC. Seu partido, PFL, jogava as cartas nesta possibilidade, uma vez que o PMDB também articulava a indicação de um nome oriundo de seus quadros, afinal, nas duas eleições anteriores 94 e 98 o pernambucano Marco Maciel foi o ungido.
A novidade foi que a estratégia de marketing posta em prática surtiu um efeito acima do esperado: o nome da governadora permeou pelas entranhas do país de norte a sul e aquilo que parecia ser uma simples tática de campanha acabou uma candidatura posta à mesa. Ao contrário de outras, sua força vinha do interior para os grandes centros, a exemplo de Collor de Mello em 89, quando se sabe que há casos em que a dificuldade está justamente em vender o nome à grande massa.
O pior para os tucanos é que as pesquisas mostram Roseana em segundo lugar na intenção de votos, com 16% das preferências, segundo o Ibope, enquanto o ministro José Serra patina na casa dos 5 e 6%. Além disso e talvez o dado mais importante na amostragem é que os índices de rejeição ao seu nome têm decrescido.
Se a tese do ex-governador paulista Paulo Maluf de que ''em política o feio é perder'' está correta, o ''pefelê'' vai vender muito caro o passe da governadora. Em primeiro lugar porque é preciso reconhecer que se trata de um partido pragmático, que desde sua gênese na antiga Arena, depois PDS sempre buscou aliar-se ao poder e foi bem sucedido em todas as situações. São profissionais do voto.
Agora, já se fala numa possível aliança com o PMDB, que por sua vez torna-se a noiva das eleições, sendo assediado tanto pelo PFL como PSDB para ocupar a vice. A queda de braços está em decidir se os tucanos abrem mão em favor de uma candidatura da base de apoio melhor posicionada ou arriscam o jogo do tudo ou nada, confiando na performance do governo FHC.
A consulta do Ibope mostra que 58% dos consultados não votariam num candidato identificado com o presidente e o ministro da Saúde é tido, por 53% dos pesquisados, como tal. Há os que apostam que o PSDB pode tirar um nome da cartola, uma espécie de áz da manga, capaz de unir as várias correntes. Mesmo assim a missão quase impossível será convencer o PFL, dentro de uma lógica, a retirar um nome que até agora só tem crescido nas consultas.
Por enquanto fica valendo que pesquisa, como se costuma dizer nos meios, é simplesmente um retrato do momento, às vezes virtual ou fictício. O dilema, tanto aos partidários como adversários da governadora, é saber até que ponto ela sustenta estes números ou então, quando for dada a largada, será capaz de suportar o jogo baixo, violento e rasteiro que caracteriza qualquer eleição.
Uma campanha no Maranhão, onde ainda impera o coronelismo e tendo a mídia toda a seu favor é, no mínimo, diferente do que deverá acontecer no resto do país. Senhoras e senhores, o jogo começou. Façam suas apostas.
RENÉ RUSCHEL é economista e jornalista em Curitiba
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Surrealismo na Casa Rosada
Graciela Urquiza Mendes
Já era mais do que conhecida a falta de habilidade e audácia política do governo De la Rúa eleito por uma coalizão de centro-esquerda de espírito conservador (União Cívica Radical e Frepaso). No mesmo ritmo do chefe, seguia o esquema econômico nascido há uma década com a conversibilidade da moeda e que agora agoniza, sem antídoto à vista.
Mas por trás dos saques, da violência, da tragédia argentina, descobriu-se algo pior. Um poder político vazio de idéias, inóspito de soluções, pobre de alianças e sem qualquer princípio de autoridade. Nem mesmo Raúl Alfonsin, por mais fraco que parecesse no final dos anos 80, deixou de receber apoio. No turbilhão da revolta dos carapintadas, o povo cercou a Casa Rosada (sede do governo) e protegeu seu presidente da insanidade de alguns militares.
As recentes imagens na tevê do povo argentino em busca de comida, no desespero da contagem regressiva para o Natal, contrastavam com o autismo oficial. Durante o caos de quarta-feira, De la Rúa só falou à nação à noite, quando a horda enfurecida já ultrapassava as fronteiras do aristocrático centro de Buenos Aires. Com um discurso inócuo, ele criticou os ''aproveitadores'', diferenciado-os dos ''pobres necessitados''.
Seu governo não percebeu que todos no país viraram necessitados. E, ao longo da história argentina, descamisados são sempre justicialistas (peronistas). O partido do general Juan Domingo Perón despachado do poder duas vezes pelos ''gorilas militares'' sempre exerceu fascínio quando a nação descia ladeira abaixo. Ou por motivos políticos, como na eleição de 1972, quando Hector Campora resgatou Perón do exílio na Espanha e renunciou em favor do chefe. Ou econômico, quando em 1989, acossado por uma hiperinflação anual de quatro dígitos, Alfonsin teve de passar o bastão a Carlos Menem.
Nas 48 horas que antecederam a queda de Fernando De la Rúa, as cenas de imobilidade na Casa Rosada foram tão explícitas que parecia não haver mais governo. A história da renúncia do superministro da Economia o pai do caos foi surrealista. Poucos momentos antes de Domingo Cavallo anunciar sua saída, um assessor direto aconselhou ao ainda ministro: ''Creio que temos que ir embora. Senão, vamos terminar arrastando De la Rúa''. E arrastaram.
GRACIELA URQUIZA MENDES é jornalista em Brasília


