Espaço Aberto
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Sinal de grandeza
No meio de um novo redemoinho econômico no País, salvam-se duas boas notícias. Uma é o pronunciamento firme do presidente Fernando Henrique Cardoso contrário ao projeto de perdão das dívidas dos ruralistas. Mesmo que tenha sido levado pela necessidade de acalmar os mercados, esses seres invisíveis sempre prontos a tirar o seu rico dinheirinho do Brasil, é reconfortante saber com clareza o que pensa, quer e vai fazer o governo. A segunda é parecida: a disposição do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, de sair por aí explicando as recentes medidas econômicas.Fica evidente que o esforço dos dois faz parte de uma estratégia de recuperar a popularidade e a autoridade do governo e do presidente, em particular. O primeiro desafio é, justamente, comunicar-se tão bem com os eleitores (afinal, é a opinião deles que se ouve nas pesquisas) quanto com os representantes do tal mercado. É curioso notar que os índices de popularidade do governo precisam ir à lona para os governantes se darem conta de que devem explicações e satisfações à sociedade. Deveria ser algo inerente à função.
O caso das autoridades econômicas é muito revelador da distância que separa o governo e a sociedade que paga seus salários. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, já distribuiu documentos em inglês em uma coletiva para a imprensa brasileira. Pegou muito mal. Vale lembrar também a confusão provocada pelo ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes ao anunciar a banda cambial hexógena, ou algo parecido, quando fez a desvalorização do real. Lopes se estrumbicou, como dizia o velho e sábio Chacrinha.
Armínio Fraga tem a seu favor, pelo menos, o fato de estar tentando arduamente se entender com os mortais sem passagem por Wall Street. Outro dia, concedeu exemplar entrevista ao rádio. Não exatamente pelo conteúdo, mas pelo empenho em se fazer entender pelo chamado povão. Ele dirigiu-se ao ouvinte, procurou palavras simples e até deu conselhos de investimento para pequenos poupadores. Nada que pudesse abalar os tais mercados ou mudar os rumos da economia, mas muito simpático para os sem-hedge - hedge é o instrumento financeiro por meio do qual as empresas se defendem de variações cambiais bruscas.
Não se trata de sugerir aos integrantes do governo que passem a frequentar programas de auditório com o objetivo de se tornarem populares. Ou que sejam o que não são em frente às câmeras. O essencial é ter em mente que dar explicações à população equivale ao mínimo do que se pode esperar de um governo eleito democraticamente. Não é nenhuma humilhação. Ao contrário. É sinal de grandeza. Uma demonstração de apreço e respeito por milhões de pessoas que depositaram em suas mãos o resultado do seu trabalho e as esperanças de um futuro melhor.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo





