Espaço aberto
Espaço aberto
Joel Samways Neto
A Natureza sempre proporcionou boas metáforas à compreensão do fenômeno humano, e elas foram captadas pelos olhares atentos do senso comum. Note-se a profundidade desta síntese da sabedoria popular brasileira: De grão em grão, a galinha enche o papo. É a ação da fauna exposta à reflexão livre, podendo significar os frutos do trabalho persistente ou a demonstração de que se valorizando pequenas coisas pode-se chegar a grandes construções.
Que dizer de uma horta caseira? É a Natureza organizada, manejada, cultivada pelas mãos e mente desse seu extraordinário exemplar, o ser humano. Nessa empreitada hortícola vige um princípio fundamental: quem planta, colhe (algo devidamente observado e anotado, há milênios). Agora, colhe melhor quem planta melhor, quem se dedica com mais afinco ao trabalho, que não tem preguiça de irrigar na hora certa, e, sobretudo, quem não deixa passar a oportunidade de limpar os canteiros, expurgando pragas e ervas daninhas. O horticultor relapso, a seu turno, descobrirá em pouco tempo o resultado de sua relapsia. E quando vir sua horta tomada pelo mato, sentirá o peso do significado daquela outra brilhante frase do saber universal: É melhor prevenir do que remediar.
Como a horta caseira se parece com a vida do homem e da sociedade! Do ponto-de-vista individual, o melhor exemplo é o cultivo da saúde. Quem não tem disciplina alimentar, por exemplo, está fadado a levar um susto do cardiologista face ao resultado do exame de sangue (excesso de colesterol ruim, triglicerídeos...). Do ponto de vista social, a regra não é outra. Quem não cultivar os princípios gerais da democracia, da cidadania, não tardará em sofrer os efeitos dessa sua omissão. A vida é uma horta.
Pinçando-se do mosaico social, para estudo, um eslaide do autoritarismo enquanto sistema político, percebe-se o quanto a metáfora é apropriada. Autoritarismo: a prevalência do poder do governo, concentrando-se o poder nas mãos de um, ou de alguns, em detrimento do consenso (conforme o Dicionário de Política, de Norberto Bobbio, Edunb). Noutras palavras, é o sistema político no qual o governante, autoritário, sabe, sozinho, o que é melhor para o povo. Portanto, ele decide sozinho, impõe sua vontade, reduz as liberdades públicas, centraliza tudo e subjuga a oposição e a ação das instituições controladoras (universidade, imprensa, teatro, organizações civis etc.). Evidentemente, não é preciso ser especialista de área para constatar que autoritarismo não rima com democracia.
Assim como na horta do horticultor desleixado, o autoritarismo começa aos poucos, de grão em grão, de graveto em graveto, como os primeiros brotos de ervas daninhas surgindo nos canteiros. O horticultor preguiçoso vai deixando, porque o mato está pequeno, não fará mal ao repolho, à alface, à cenoura - alguns, inclusive, teorizam a proposta de que um pouquinho de mato até é bom para a horticultura. De repente, passados alguns dias de chuva, lá vem o susto: o mato cobriu as hortaliças, matando-as por abafamento. No caso do autoritarismo, o cidadão vai deixando o governante cometer um ato autoritário aqui, outro ali, um murrozinho na mesa aqui, um grito histérico ali; logo, do murro e do grito vêm um abusozinho de poder, uma violaçãozinha da lei, pecados veniais segundo alguns; demonstração de força, segundo outros. Isso ocorre quando um governante privilegia a logomarca partidária de seu governo e não os símbolos oficiais da organização política que está gerenciando. Ocorre, também, quando o governante faz vistas grossas aos direitos dos cidadãos, dando-lhes uns empurrões, uns safanões (coisas como instituir um tributo flagrantemente ilegal, e quem não se conformar que demande em Juízo). Ou quando negocia com autoritários do Poder Legislativo para obter vantagens que não podem ser generalizadas (por exemplo: criação de cargos em comissão, com salários atípicos).
Mas pior, pior mesmo, do que a erva daninha crescer (o que, afinal, é de sua natureza) é o horticultor se omitir. No caso do autoritarismo, a omissão é do cidadão que não se digna sequer a escrever uma carta ao governante, ou à imprensa, expressando algum tipo de resistência, repudiando um determinado ato autoritário, arrancando a sujeira já no início. Pois que não se assuste esse cidadão se, mais tarde, o governante autoritário começar a ditar a hora em que ele deve sair de casa, onde deve trabalhar, o que é proibido dizer ou mesmo pensar - o mato, a praga, estarão totalitários na horta.
E o horticultor terá de pastar o capim-gordura da opressão para sobreviver.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba





