ESPAÇO ABERTO
Campeões na educação, um título que temos de conquistar
O fato de a seleção do Japão ter sido a primeira na história da Copa do Mundo a se classificar às oitavas de final pelo critério de disciplina é congruente com a atitude de seus torcedores, já observada há quatro anos no Brasil, de levar saquinhos às arenas russas para recolher os resíduos de alimentos e bebidas que consomem durante os jogos. O ponto de congruência entre o fair play dos atletas e a cidadania do seu público encontra-se na educação. Embora considerado muito rígido por algumas correntes de pensamento, o sistema escolar japonês é bastante eficiente. A taxa de alfabetização e de frequência para o ensino fundamental, compulsório, é de praticamente 100%. Embora não seja obrigatório, o ensino médio tem mais de 96% de matrículas em todo o país, chegando a quase 100% em algumas cidades. A evasão
escolar é de apenas 2%. Em contraste com esses dados, ainda temos no Brasil mais de 12 milhões de analfabetos e, segundo o último relatório "De Olho nas Metas", do movimento Todos pela Educação (TPE), 3,6 milhões de crianças e jovens entre 4 e 17 anos estão fora da escola em nosso país. O deficit também é grande na faixa etária entre quatro e cinco anos: um milhão. Além da qualidade pedagógica, há algo importante no sistema educacional japonês: o estímulo à cidadania e práticas na vida, com a valorização dos conceitos de higiene, pontualidade, cooperação, trabalho
em grupo e preocupação com a comunidade. Os alunos desenvolvem tarefas que
promovem a responsabilidade, o respeito pelo próximo e os mais velhos e o bem-estar dos grupos nos quais convivem. Há uma divisão de tarefas e os estudantes assumem funções cotidianas, como a preparação do lanche escolar e limpeza das salas de aula. A atividade escolar reflete-se no dia a dia da sociedade: todos os cidadãos, independentemente de suas profissões, fazem a limpeza das calçadas, estacionamentos e áreas adjacentes ao seu local de moradia e trabalho. É o mesmo padrão de comportamento ao qual assistimos nos estádios da Copa do Mundo e que também garantiu a histórica classificação da seleção japonesa no mundial da Rússia. Nós, brasileiros, somos pentacampeões na mais importante competição esportiva do Planeta. Agora, precisamos começar, também, a ganhar títulos nos campos da educação, civismo e conhecimento, para almejarmos um futuro melhor!
*RUBENS F. PASSOS, economista e diretor do Sindicato das Indústrias Gráficas no Estado de São Paulo
Um magistrado não se pertence
É pressuposto que um magistrado exerça com lisura sua função, ou nada de virtuoso lhe terá valido a privilegiada investidura em cargo de tamanha relevância. Foi o que publiquei dois anos atrás, e é agora oportuno rememorar isto, quando a opinião pública consciente manifesta-se decepcionada com posições de quatro membros do Supremo Tribunal Federal, a ponto de o professor de Direito da FGV, Joaquim Falcão, declarar que o debate no STF deixou de ser político-constitucional para ser política pura. (Embora todo ato humano seja um ato político, refiro-me à política partidária ou ideológica, que não deve figurar no ideário de um juiz no exercício de suas atribuições).
Impensável então - como escrevi - que autoridades que enfeixam em suas mãos tanto poder sucumbam e se deixem seduzir por alguma forma de capricho, seja revanchismo ante decisões de colegas de mais baixa instância que ganharam a admiração popular, seja por ciúmes e sabe-se lá o quê. No caso da Suprema Corte, a responsabilidade que lhe pesa é redobrada. É do consenso jurídico que deve o juiz seguir a ordem constitucional como referência primeira, então ele não pode ser escravo de fraquezas, nem de eventuais birras pessoais, e muito menos condescendente com quem o indicou para o cargo.
Sendo investido da toga e guindado a um colegiado que pode induzir - para o bem ou para o mal - o destino político da nação, ele não mais se pertence, mas incorpora-se ao organismo social e a ele se vincula indissoluvelmente. Por isso não pode pecar. O mesmo se deve dizer com relação aos políticos.
O que quer o povo não atrelado a militâncias e que não mama nas tetas do governo? Não quer certamente que um pequeno grupo de magistrados, mas de elevado poder, liberte tão facilmente gente presa por denúncia de corrupção; não quer que supermagistrados se insurjam contra a mais bem sucedida operação de combate à bandidagem formada por políticos e seus associados e que já colocou atrás das grades mais de 300 deles. Só um desses ministros já mandou soltar 24 acusados destes denominados de "colarinho branco". Uma revista publicou que ele faz isto com gosto...
WALMOR MACCARINI, jornalista
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