Função paterna
Todos sabem da importância materna para o desenvolvimento da criança, porém são poucos que dão o devido valor para a função paterna e o que ela representa para o psiquismo. Os pais foram, por muito tempo, deixados em segundo plano e muito disso é devido aos próprios pais que consideravam que se ocupar dos filhos era coisa de mulher e não de homens. O mundo já não é mais o mesmo (ainda bem) e muitos paradigmas mudaram e entre eles a imagem paterna.

Os pais têm a função de ajudar os filhos a internalizar a ordem, organizando a mente e estabelecendo limites. Com os pais as crianças devem aprender que nem tudo se pode e que um mundo sem lei seria muito desumano. O pai aparece como um corte e uma quebra no narcisismo da criança que, inicialmente, acha que todas as suas exigências e necessidades devem ser atendidas sem demora e sem restrições. A lei do nosso mundo interno, que certamente terá manifestações e consequências no mundo externo, só se dá à medida que a função paterna seja internalizada.

Porém, ao mesmo tempo que o pai desempenha esse corte e frustra o narcisismo abre novas portas, ou seja, abre novas possibilidades da criança vir a se construir. Com a figura do pai a criança pode vislumbrar a existência de um mundo de oportunidades. O pai apresenta o mundo aos filhos e representando bem sua função vai estimulá-los a querer conhecê-lo e conquistá-lo. Por isso que a função paterna é importante, já que tem a ver muito como o filho vai enxergar o mundo e se relacionar com ele.
Pais que temem ser pais prejudicam seus filhos. Ao não assumirem sua função de estabelecer ordem faz com que os filhos fiquem confusos e temerosos em enfrentar o mundo. Acabam se tornando adolescentes e adultos que não reconhecem limites, desrespeitam qualquer organização e diferença e por isso mesmo terão um péssimo relacionamento consigo e com o mundo. Neles a ordem não foi bem internalizada e vista como algo necessário à vida. A boa identificação com o pai é importante para o desenvolvimento psicológico e um pai que não fornece isso aos seus filhos está abandonando-os para se virarem sozinhos com seus impulsos. É importante também dizer que a função paterna não precisa ser necessariamente realizada por um homem e nem pelo próprio pai em si. O gênero e a pessoa que a exerce independem para um bom estabelecimento da função paterna. O que importa é que ela seja exercida com amor e respeito.

SYLVIO DO AMARAL SCHREINER, psicoterapeuta

Miragens da vida facebookiana
Quando fico diante das redes sociais, sei que ali há um grande espetáculo. Espetáculo esse que é criado, pensado e compartilhado por cada um dos amigos virtuais. Há sempre aquele que é o "politizado", "o estou certo", "o viajado" e por aí vai. Cada um, a sua maneira, dá a cor e a história em sua rede social, sendo, portanto, um editor de sua própria vida virtual.
Numa conversa com alguns amigos, eles comentaram que viam a vida de muitos "dar certo", "repleta de sucesso", enquanto eles próprios pareciam não sair do lugar. Perguntei como chegaram a essa conclusão. Me disseram que apenas viram pelo Facebook.
Eu apenas ri. Ri por saber que, em se tratando de redes sociais, é muito fácil se criar ilusões. Ali há a família perfeita, o casal que se ama eternamente, a pessoa cult. Você encontra o sábio, o engraçado, o poeta, a personificação da moral e dos bons costumes. Tem de tudo. Mas nada deixa de ser fruto de uma grande edição: as pessoas, assim como na vida real, colocam ali apenas a imagem que querem passar. Isso pode não ser a realidade, apenas uma representação.
Tenho certo receio com o que vejo: sempre há uma intenção por trás de cada mensagem. Há ali uma grande edição, uma escolha pensada sobre o que entra e o que não entra. Na vida real, as coisas podem não ser necessariamente assim. Já vi gente ser a "barraqueira do Facebook", mas não tomar nenhuma atitude para transformar o mundo num lugar um pouco melhor. Se reclamar mudasse as coisas, acho que estaríamos num outro patamar.
Por isso, quando pensar que sua vida não é um "sucesso", lembre-se: a postagem do seu amigo virtual pode ser apenas uma grande fantasia. Na foto, o melhor sorriso. Mas no interior, pode ser que as coisas não sejam bem assim. Sucesso não é postar. É viver e aprender com a vida.

JULIANO SCHIAVO, jornalista, escritor, biólogo e mestre em agricultura e ambiente

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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