A Pastoral da Criança está desenvolvendo um interessante programa denominado "Toda gestação dura 1.000 dias". A ideia é conscientizar as mães de que os cuidados básicos durante a gestação, necessários para uma criança vir ao mundo com saúde, devem ser estendidos até esta completar, no mínimo, dois anos de idade, o que totaliza os exatos 1.000 dias. Isto é um pré-requisito para que a criança possa ter bagagem para um ótimo desenvolvimento físico, mental e psicológico durante a vida toda. Conforme site da Pastoral, "a ideia é mostrar que, ainda que seja impossível proteger os filhos de tombos, joelhos ralados ou a dor de um amor não correspondido, a proteção e o cuidado que se tem com as crianças nos primeiros dois anos de vida é fundamental para toda a vida". Segundo dr. Nelson Arns Neumann, coordenador nacional adjunto da Pastoral da Criança, com essa campanha, "muitas vidas serão salvas e as crianças terão uma perspectiva de uma velhice saudável, visto que as doenças que mais acometem os idosos têm forte ligação com os cuidados recebidos nesses primeiros 1.000 dias de vida".
O conjunto de ideias que embasam esse programa é semelhante ao posicionamento da geneticista drª Eliane Elisa de Souza e Azevedo, em seu livro "O Direito de vir-a-ser após o nascimento" (2002, p.68). A autora afirma que "o futuro físico e mental de qualquer pessoa depende, fundamentalmente, do ambiente no qual seu organismo se desenvolve nos primeiros anos de vida". A geneticista aponta que a desnutrição, a anemia, a ausência de assistência médica, a baixa escolaridade, entre outros fatores, podem reduzir o potencial de inteligência da criança, assim como seu potencial físico e mental, trazidos geneticamente. Mais ainda, podem provocar mortes precoces ou incapacitações. Assim, é urgente cobrarmos do governo para que este assuma, também, seu papel na proteção e no cuidado das crianças até os 1.000 dias de vida (e não só), por meio de suas políticas públicas.
Como a "proteção e o cuidado" são o mote do programa Toda gestação dura 1.000 dias, defendo a urgência da educação sexual, para que, cada vez mais, mulheres e homens tenham maior responsabilidade na prevenção da gravidez não desejada e/ou não planejada, pois uma jovem que engravida de forma planejada terá maior probabilidade de proteger e cuidar do bebê nos 1.000 dias e durante a vida que se seguirá. Além do desenvolvimento intelectual, nosso sistema educacional tem que cuidar da formação integral de crianças e jovens, desde a educação infantil, para que programas como o da Pastoral da Criança e outros ligados à saúde sexual tenham sua eficácia potencializada.
Quando se fala em proteção, é necessário que a mãe proteja a criança de acidentes domésticos, da violência física e da psicológica, feita por meio de críticas, ofensas e comentários depreciativos. Que a mãe a proteja de abusos sexuais, vigiando-a e não a deixando junto de pessoas que possam dela abusar sexualmente, desconfiando até mesmo de pessoas próximas e conhecidas. Em relação ao cuidado, o mesmo está relacionado à educação escolar, familiar, espiritual, alimentar, física e sexual. Também faz parte do cuidado desenvolver a inteligência da criança, o gosto pela leitura e pelo estudo, sua afetividade e sociabilidade, e o aprendizado do respeito à natureza e aos animais.
Se pensarmos do ponto de vista psicológico, o amor, a proteção e o cuidado da mãe, assim como do pai e de outros adultos responsáveis pela criança, são importantíssimos para que ela se sinta amada, tenha uma autoimagem positiva e ame a si mesma, para, a partir daí, ser capaz de amar as pessoas. Assim sendo, a proteção e o cuidado até a adolescência, mas, sobretudo, nos 1.000 dias, são fundamentais para o desenvolvimento de adultos equilibrados e prontos para relações saudáveis, nas quais o respeito mútuo, a consideração pelo outro, o respeito a todo tipo de diversidade e a disposição para a cooperação sejam o sustento das relações.

MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é psicóloga, doutora em Educação e professora sênior da Universidade Estadual de Londrina

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