ESPAÇO ABERTO- Sobre o Código Da Vinci
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de outubro de 2004
Walmor Macarini 
Mais um bem elaborado e instigante romance policial que uma obra reveladora, porém de importância como relato capaz de provocar lampejos de despertamento naqueles com alguma inclinação para avançar por caminhos novos de busca e de resposta para mistérios não desvelados. O ''Código Da Vinci'', do escritor inglês Dan Brown, já vendeu 14 milhões de exemplares, dos quais 160 mil no Brasil. Tal não surpreende, ademais porque tudo o que é lançado no topo da montanha (entenda-se os Estados Unidos) tem o inevitável destino de precipitar-se e inundar os vales.
Com o intrigante apelo de um código de Leonardo Da Vinci (e ele teve muitos), a obra atraiu leitores de todos os credos. Seria preciso que o próprio autor se impressionasse com coisas que leu e resolvesse recontá-las, a seu modo - e convenhamos que o fez com maestria, pelo extraordinário recheio da trama policial, capaz de envolver um ávido caçador de aventuras e de enigmas. Não porém alguém já avançado na senda.
A crítica dos veículos de comunicação e dos contrários - tão aleatória quanto o livro de Dan Brown - avalia o autor quanto ao que afirma, mas não é a ele que devem voltar-se as atenções e sim aos textos mais profundos já escritos, fonte onde o jovem escritor foi beber. Tudo o que ele diz de aparente revelação já está no vasto acervo que compõe a bíblia do esoterismo, sublimes mensagens que, com muita probabilidade, virão a se converter na bíblia única da humanidade - um Novíssimo Testamento - a desvendar também alguns mistérios contidos no Antigo e no Novo.
Não constituem novidade os relatos do ''Código Da Vinci'' sobre Maria Madalena, que segundo escritos antigos era pura e nobre, descendente de Davi e Salomão; de seu provável casamento com Jesus; de haver tido com ele uma filha e de sua mudança para a França após o episódio da crucificação. Não só porque Da Vinci a coloca no quadro da Santa Ceia - e de mãos dadas com Jesus - mas porque há relatos muito convincentes sobre aquelas possibilidades da vida de Jesus e Madalena.
Não é Dan Brown que denuncia a Igreja (isso seria atribuir a ele competência demais) e sim esses textos antigos e a própria história. Seu livro, em seis meses de existência, já recebeu pancadaria de meio mundo, algo tão vago quanto o ''Código'' e isso gerou novos best-sellers. E por quê? Porque toda essa linguagem é de consumo popular. As pessoas não lêem o profundo e acabam lendo o genérico, porque este lhe chega de surpresa, por via da propaganda, e aquele precisa ser buscado.
Mas, retornando ao fato mais polêmico, pergunta-se o que acrescenta, ou subtrai, o suposto fato de Jesus ter amado uma mulher e eventualmente ter sido marido e pai. Nada especial, porque comum, importando mais os seus sábios ensinamentos. Ele desejava que fosse não Pedro mas Madalena a edificadora de sua Igreja (entenda-se o ministério). Porém a difamação de Madalena séculos depois, fato atribuído à Igreja já cristã, e a supressão da presença de uma mulher (ela ainda) como apóstola (uma, dentre os doze), buscaram obscurecer a sublimação da mulher e do sagrado feminino, simbolizado (inclusive) no seu receptáculo uterino, o cálice, o Santo Graal, o Vaso Sagrado gerador da vida.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


