ESPAÇO ABERTO -Globalização, drogas e fronteiras
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de janeiro de 2011
Francisca Vergínio Soares* 
Estudo realizado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) mostrou que o consumo de crack no Brasil é assustador. O problema já é visível a olho nu e só não enxerga quem não quer. O estudo mostrou que esta droga já chegou a 98% em quase todos os municípios, quase quatro mil foram consultados. Segundo a pesquisa, os municípios foram arguidos sobre a presença ou não do crack e o resultado foi estarrecedor: 98%. Perguntado sobre o desenvolvimento de políticas públicas voltada à prevenção e ao controle do uso, no estudo mais de 91% responderam não possuir nenhum programa municipal de combate a esse tipo de droga. Foi constatado que não existe nenhum tipo de auxílio dos governos federal e estadual. Segundo as respostas, 48,15% disseram que promovem campanhas preventivas e 51,85% disseram que não.
As medidas que precisam ser tomadas para combater essa triste realidade de nada valerá se outras mais duras não forem implantadas tendo em vista o crescimento visível do tráfico de drogas em nível nacional e internacional. O problema precisa ser enfrentado globalmente para se ter soluções locais. Outro estudo da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife) sobre consumo e produção de drogas no mundo apontou que uma nova rota do tráfico está se intensificando nos últimos anos e está se configurando como a nova porta de saída da cocaína produzida na Colômbia - de alta qualidade - para abastecer a Europa. Segundo esse estudo, a droga sai de território colombiano, passa pelo Brasil e é transportada por aviões particulares, navios e iates para a África. De lá, a cocaína é distribuída de vários países para consumidores europeus.
A África Ocidental está rapidamente se tornando a mais importante rota de contrabando de cocaína que vem da América do Sul enviada para a Europa. A Interpol estima que 200 a 300 toneladas de cocaína chegam à Europa. Traficantes também estão usando a África, especialmente o centro do continente, como rota de passagem de precursores como efedrina e pseudoefedrina. A falta de uma legislação sólida contra o tráfico de precursores na maioria dos países africanos facilita a compra de produtos químicos para a fabricação ilícita de drogas. A África responde por 7,6% do total de consumidores de cocaína no mundo, concentrados especialmente no oeste e sul da África e em áreas costeiras do norte do continente - diz o relatório. Os clientes da Europa ainda recebem a maior parte da droga pela rota direta que liga os traficantes colombianos ao velho continente ou que usam o Brasil com passagem antes de chegar à Europa.
Ainda segundo a pesquisa, na África Ocidental os principais aeroportos utilizados pelos correios que introduzem a cocaína contrabandeada na Europa são os de Dakar, Conakry, Freetown, Banjul, Accra e Lagos. Levando em conta o aumento da oferta de cocaína na África ocidental, foram desenvolvidas redes organizadas de tráfico capazes de adquirir e redistribuir centenas de quilos de cocaína - indica o relatório. O surgimento dessa rota é uma das maiores preocupações em relação ao tráfico, já que os mecanismos de controle no continente africano ainda são precários e a legislação ainda é insuficiente para combater o tráfico internacional.
Enfim, o que chamo de nova violência tem origem no tráfico de drogas e é preciso que haja uma ação globalizada onde os países conjuntamente articulem políticas eficazes de combate a esse mercado ilícito e impeça a entrada de drogas em seus territórios. Estabelecer um acordo para agir nas fronteiras e exercer um controle efetivo da cadeia produtiva da indústria química nacional e internacional, além da revisão, que a confederação classifica como das leis permissivas que impedem uma ação mais efetiva da polícia. Internamente, são indispensáveis ações voltadas à mobilização e orientação, prevenção ao uso de drogas, atendimento aos familiares, tratamento aos dependentes, combate ao tráfico e estudos constantes sobre o assunto.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais, docente e pesquisadora da Faculdade Uninorte e diretora do Obsocil
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