Tenho em Terra Boa, aqui no Paraná, uma amiga ex-freira e agora professora, que insiste em ser amável comigo e brinda-me periodicamente com agradáveis cartas. Ela menciona com simpatia meus escritos, e assim curvo-me ao ego e acho bom. Mas o melhor de suas palavras é a constante manifestação de alegria e otimismo, que parece brotar do fundo de seu ser.
Maria Ana o seu nome. De vista, não a conheço. Pródiga em agradecimentos por todas as coisas e também - como diz - pela oportunidade de ter vivido experiências duras, ela põe Deus sempre à frente. Narra episódios de sua vida monástica, que abandonou por haver sentido uma forte impulsão por constituir família, ter filhos, marido, um lar, e dedicar-se ao magistério.
Nos anos missionários de freira atuou em vários Estados e diferentes situações, e passou pela experiência de dar atendimento nas favelas do Rio de Janeiro, hoje declarando-se apaixonada pelo mister de educadora e feliz com ela mesma e com a vida em sua pequena Terra Boa. Qualquer ponto é sempre o centro do mundo, já que o mundo é redondo e não se sabe onde começa e onde termina.
Aprendi a ver Deus até num simples e pequeno olhar do mais minúsculo dos seres - escreve Maria Ana - assim como diz amar a natureza, sua escola, seus alunos, seu trabalho. Há que viver com intensidade - enfatiza - pouco importando se, no convívio diário com os pupilos da escola, depara-se também com os rebeldes. Louva os mestres e diz que se às vezes eles erram na tática, são no entanto cheios de carinho.
As laudas e laudas que escreve e me envia são recheadas de belas palavras, e agrada escutá-las, pela leitura. Essa professora e ex-Irmã Arcângela da comunidade das Pastorinhas, agora casada e mãe de quatro filhos, vive no mesmo mundo que todas as demais pessoas -muitas inquietas e atribuladas -e no entanto o acha bom de viver. Como a declarar que tudo depende de como cada um vê e avalia as coisas.
Ela me surpreende agora ao dizer-me que em seus tempos de adolescente tocava o sino de sua igreja. Rememorei então, com nostálgica e doce lembrança, os tempos em que, também eu adolescente, fui tocador de sino em minha terrinha natal, tarefa que desempenhei com suprema devoção durante vários anos.
Conferi as idades, a minha e a dela, e como nesse tempo não estávamos muito longe - eu na minha aldeia do sul catarinense e ela em Caxias, no Rio Grande - imaginei que tocávamos sino na mesma época, e obviamente nas mesmas horas: às 6 da manhã, ao meio-dia, na Ave Maria e nas missas dos domingos. Sem que o soubéssemos, a voz dos nossos sinos se entrecruzava e penetrava pela vastidão das distâncias em melodioso intercâmbio de sacrossantas vibrações.
Talvez esse diálogo dos sinos, hoje mudo pelas circunstâncias, tenha agora se convertido neste reencontro: eu a fazer meus escritos no jornal e ela a enviar-me suas amáveis cartas.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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