Duda Mendonça, o publicitário responsável pela campanha do presidente Lula disse, logo depois de preso numa rinha de galos, que não estava fazendo ''nada de errado''. Afinal, todo mundo sabia do seu hobby. E, portanto, para ele parecia secundário o fato de estar fazendo algo proibido pelo então presidente Jânio Quadros em 1961. Mas o inaceitável, e aí está a gravidade, é que o referido marqueteiro pela segura influência que ganhou sobre o governo, se dê ao desplante de, flagrado no crime, telefonar para o ministro da Justiça. Qual sua intenção com a carteirada? Livrar-se do vexame do camburão, através de ''ordem superior''? Ou provar que tem influência o suficiente para desmobilizar ação da Polícia Federal?
O conceito do ''nada de errado'' nos remete ao que o antropólogo Roberto da Matta, definiu como sendo o ''jeitinho brasileiro'' onde a lei não é feita para todos, principalmente quando prevalece o velho chavão: ''Você sabe com quem está falando?'' É de notar que é no trânsito, ambiente no qual fica bem caracterizado a concepção de que ''tudo é normal'' desde que seja conveniente para o motorista infrator. As regras existem para os outros, os trouxas, os otários que não têm o poder de dar uma carteirada. Na política o conceito de normalidade e de que não há ''nada de errado'' mostrou uma preocupante situação: políticos eleitos que respondem a processos ou têm estreitas ligações com o mundo delinquente. Isso não impede que sejam cada vez mais bem-acolhidos pelos colegas e tenham o seu know-how muitas vezes aproveitado para ajudar nas alianças e acordos de loteamento do poder que consagram a governabilidade.
Em situações semelhantes a essas que estamos exauridos de assistir o que se vê é a inversão das leis universais porque ''eu me defendo e faço valer minha vontade e minhas razões não utilizando outra lei universal, mas uma relação pessoal'', segundo Roberto Da Matta. Se o exemplo vem de cima - e isso é tradição na história social brasileira - muita gente tende a pensar que, de fato, seguir as normas, trabalhar honestamente, obedecer às leis é coisa para trouxa.
Estamos, portanto, mergulhados como definiu o psicanalista Jurandir Freire Costa numa cultura da razão cínica na qual se alicerçam quatro atributos da sociedade brasileira: o cinismo, a delinquência, a violência e o narcisismo. Diz que no Brasil há uma desvalorização da política em favor de uma cultura marginal de delinquência e dos interesses particulares de cada um. Há um elo indissociável entre o político que lesa o erário e o cidadão que ultrapassa o sinal vermelho e o bandido que mata: todos deixaram de levar em conta a lei. Afirmações difíceis de serem refutadas.

FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais e docente de Ciência Política e Sociologia em Londrina

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