ESPAÇO ABERTO - Virgindade
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de dezembro de 2012
Mary Neide Damico Figueiró 
Virgindade é um termo criado para se referir à situação da mulher que nunca teve relação sexual, com penetração, com um homem, e que, por isso, possui o hímen intacto. Às vezes, ocorre um pequeno sangramento no momento do rompimento do hímen, mas para isso é preciso que haja um vaso sanguíneo no ponto do rompimento. O sangramento nem sempre é sinal seguro do fim da virgindade, pois, dependendo do tipo de hímen, é comum este não se romper na primeira relação, caso do hímen complacente, que é flexível e resistente.
Entretanto, fica a pergunta: seria considerada virgem uma mulher que já fez sexo de várias formas, como, por exemplo, o sexo oral e anal, e tem seu hímen intacto por não haver feito sexo com penetração na vagina? Em nossos dias, pode-se afirmar que ela não é mais virgem. Hoje, entende-se que é virgem a pessoa, mulher ou homem, que não teve uma relação sexual com outra pessoa, independente do tipo de sexo praticado.
A valorização, ou não, da virgindade varia de cultura para cultura. Numa época já distante, em que o sexo era exclusivamente associado à procriação, e não ao prazer do casal, o fundamento que justificava a importância da virgindade era a garantia da legitimidade da prole e, consequentemente, a segurança na distribuição da herança.
Em nosso País, de forma mais intensa, após a década de 1980, houve uma mudança significativa em relação à questão da virgindade, que passou a ser considerada sem importância para muitas pessoas, sobretudo para os jovens. Ao mesmo tempo, tem sido valorizada a possibilidade de a mulher também ter experiências sexuais antes de se casar.
Contudo, há pessoas que consideram importante que as moças continuem virgens até o casamento, atitude esta, geralmente, ligada à religião. Neste caso, elas próprias é que se impõem essa regra. Sabemos que há vários rapazes que também procuram se manter virgens até o casamento. São concepções diferentes que precisam ser respeitadas. Eu apenas pergunto: a decisão é autônoma, como uma livre escolha de alguém que aprendeu a pensar sobre sexo?
É comum garotas ou garotos disporem-se a perder a virgindade porque todos fazem ou porque é careta ser virgem, segundo os padrões atuais. Isto é lamentável, pois, neste caso, os jovens também agem sem autonomia. Ter relações sexuais para querer perder algo é pobre demais, já afirmou a psicanalista Naumi de Vasconcelos; é preciso querer ganhar algo com a relação: ganhar prazer, amor e carinho. A relação sexual, quando realizada com quem se está namorando, tende a aproximar e a gerar mais intimidade e cumplicidade entre o casal, o que contribui para o crescimento do amor.
Casais que valorizam a virgindade, muitas vezes, acabam se casando antes do tempo para poderem ter ''autorização'' moral e social para transar. Nas décadas de 1960 e 1970, período em que vivi minha adolescência, o que se observava era que ser mãe solteira era muito vergonhoso e sofredor; hoje, fico muito feliz por ver que rapazes se casam com moças solteiras que já são mães, prova de que estão buscando na mulher coisas muito além de uma simples membrana denominada hímen.
O fato de um homem desejar uma mulher virgem para se casar está relacionado à sua vaidade de querer ser o primeiro e à cultura machista. Estamos numa bonita luta de construção da igualdade entre homem e mulher, e considerar a mulher dona de seu próprio corpo é fundamental para isto. Para descontrair, costumo dizer, em minhas palestras, que o casal que deixa o início das relações sexuais para após o casamento, muito provavelmente, mais tarde, irá se lamentar por ter perdido inúmeras oportunidades de fazer sexo num tempo em que ambos tinham boa saúde, disposição e vigor físico. Muitas vezes, cansaço do trabalho e as dores advindas com a idade reduzem as oportunidades do adulto fazer sexo, embora não as inviabilizem, pois, como sabemos, até mesmo idosos conseguem e precisam usufruir do prazer sexual.
MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é psicóloga, especialista em Educação Sexual pela Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana e doutora em Educação e professora sênior do departmento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina
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