Penso que primeiramente para refletirmos o 25 de novembro, Dia Mundial de Combate à Violência contra a Mulher, precisamos nos distanciar dos próprios preconceitos como: ''mulher gosta de apanhar'', ''apanha porque merece'' ''ele não sabe porque bate, mas ela sabe porque apanha'', ''só um tapinha num dói''e por aí afora. Isto serve apenas para afastar nossos olhares de milhares de mulheres que sofrem em seu cotidiano a violência doméstica de um jeito tão velado e silencioso, causada pela organização de uma sociedade onde o homem exerce um domínio na relação com a mulher, tomando-a como sua mulher.
Para ser cúmplice desta violência, como pensam alguns, a mulher teria que estar no mesmo ''andar social'' que o homem. Infelizmente o que vemos não são diferenças sexuais, mas desigualdades entre os gêneros em nossa sociedade.
Falo inclusive em nome de ''identidades anônimas'' que sofrem a violência de gênero e ilustro com uma mulher que há alguns meses encontrei na rua e que se voltou a mim dizendo: ''Obrigada, você mudou a minha vida!''. Ela, uma mulher de 27 anos que eu havia atendido há 8 anos quando atuei profissionalmente com mulheres em situação de violência. Lembrava-me que na época ela tinha 19 anos, não tinha dentes e trazia um bebê de 4 meses nos braços (hoje com oito anos e sequelas respiratórias fruto de agressões sofridas pelo marido), e que ainda perdera 2 filhos em aborto provocado por ele. Contou-me que se separou, apesar de não ter tido apoio de sua família, porque acreditavam como a grande maioria que casou-se a mulher tem que aguentar tudo, inclusive a violência.
Este é um dos motivos que levam muitas mulheres a manterem-se neste ciclo da violência. Ela como inúmeras mulheres corajosas, mas envergonhadas, quando conseguem pedir ajuda, chegam destruídas e destituídas de sua identidade. Não portam nenhuma condição de sujeita, transferindo seu destino para mãos alheias.
Pensemos quantos de nós já julgamos, questionamos ou mesmo condenamos mulheres que sofrem violência e perpetuam seu ciclo de opressão, sem percebermos o lugar de pertencimento destas mulheres, suas condições sociais, econômicas, religiosas e culturais para romperem esta barreira.
Nós feministas acreditamos que a ampliação legal dos direitos civis e políticos da mulher, ou a equiparação dos seus direitos aos do homem, é imprescindível para começarmos falar em Direitos Humanos. Somos solidárias a esta mulher e a todas que sofrem a violência de não poder falar, pensar, sentir, decidir, desejar, planejar, trabalhar, amar, sonhar, dividir, crescer, ser respeitada, autônoma e cidadã. Continuamos nossa luta por direitos sociais, na contramão de uma tendência mundial de reavaliação dos gêneros humanos.
Lutamos para resgatar a mulher da sua sujeição e sua subordinação social, construída culturalmente ao longo dos séculos, para que se transformem as relações sociais desiguais entre homens e mulheres na construção de um mundo mais humano, mais justo, mais fraterno e igualitário, garantindo de fato e de direito, o direito das mulheres!
SUELI GALHARDI é assistente social e presidente do Grupo de Mulheres Solidariedade de Londrina

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