Há exatos 20 anos, adolescentes fizeram um arrastão em lojas da área central de Londrina. Essa triste ocorrência foi tema de uma reportagem da Folha de Londrina no último domingo. Em ótimo texto, o jornalista Fábio Galão reconstituiu o clima de medo e revolta que se instaurou na cidade em 28 de outubro de 1992. O estopim da revolta foi o fechamento do Albergue Infantil por falta de apoio da prefeitura. Revoltados com a situação, os ''menores de rua'' - como eram chamados na época - fizeram arruaça em estabelecimentos comerciais do centro. Os danos materiais foram relativamente pequenos, mas a derrota moral representada por aquele episódio deixou cicatrizes no coração da cidade.
No mesmo dia em que a FOLHA relembrava o arrastão de 1992, a população londrinense tomava conhecimento de dados preocupantes. Segundo o Relatório Estatístico Criminal do Paraná, foram registrados 4.219 roubos na região de Londrina entre janeiro e setembro deste ano. É um triste recorde numa competição que ninguém quer ganhar. Tais números colocam Londrina como uma das cidades mais vulneráveis a crimes contra o patrimônio em nosso Estado. Vinte anos depois, somos vítimas de um novo arrastão - um arrastão ''oculto'' e muito mais perigoso.
Nestas duas décadas, houve ainda um terceiro arrastão: aquele que tomou de assalto o poder público. O arrastão político se deu de duas formas: por ação e por omissão. Ações danosas aos cofres públicos geraram escândalos, cassações e até prisões. Criou-se uma instabilidade política que afastou investidores, minou oportunidades e atrasou o desenvolvimento de Londrina.
Os políticos também pecaram por omissão. Com excessivo apego a projetos de poder e melindres partidários, vários administradores municipais não deram continuidade a programas de prevenção contra a delinquência juvenil. Embora a repressão à criminalidade seja importante e imprescindível, a falta de políticas preventivas faz com que novos exércitos de adolescentes acabem aliciados pelo tráfico de drogas e promovam o arrastão permanente dos roubos. Como nenhum trabalho estruturante foi feito pela administração pública, os soldados do crime se tornam cada vez mais fortes, ousados e violentos. Em 1992, eram arruaceiros no centro da cidade; em 2012, são assaltantes que invadem a nossa casa e põem a nossa família sob a mira de um revólver.
Há, portanto, três arrastões: o de ontem, o de hoje e o de sempre. E eles estão profundamente interligados. Se o mal não for cortado pela raiz - com políticas sociais estruturantes e respeito ao patrimônio público -, seguiremos lamentando os índices de violência e chorando nossas vítimas.
Vinte anos são tempo suficiente para que um ser humano nasça, cresça e se torne adulto, mas não foram suficientes para que nós mudássemos o destino de tantos jovens desencaminhados. Por isso, é preciso começar a virar este jogo agora ou a cidade será arrastada pelo crime. Temos uma oportunidade histórica nas mãos.
Ao longo de 2011, o Fórum Desenvolve Londrina realizou um ótimo trabalho sobre a questão do adolescente em conflito com a lei. O relatório sobre o tema está disponível na internet, e contém informações e números detalhados sobre a situação de Londrina nesta área. Temos inclusive um modelo que pode ser implantado em Londrina: o programa social do município paulista de Sorocaba. Esses estudos foram enviados à prefeitura, mas - sabe-se lá por que - ignorados pela Secretaria de Ação Social.
Agora Londrina tem um novo prefeito. Alexandre Kireeff se elegeu para implantar um projeto de gestão, não um projeto de poder. Temos grande esperança de que a prefeitura comece a enfrentar o arrastão social que ameaça Londrina. Chega de arrastão. Chega de omissão!

NIVALDO BENVENHO é empresário, economista e conselheiro da Associação Comercial e Industrial de Londrina


■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 li­nhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas).
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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