ESPAÇO ABERTO - Viagra: aliado ou inimigo?
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de abril de 2004
Moacir Costa 
Quase seis anos após o advento do Viagra, ainda é possível notar o impacto de seu aparecimento, quer pela curiosidade despertada e popularização, quer pelos resultados terapêuticos alcançados. Isso se deve em grande parte ao fato de que, no capítulo da saúde sexual masculina, as aparências, realmente, enganam. E como enganam!, eu poderia dizer.
Afinal de contas são séculos e séculos de equívocos, desde o momento em que uma simples função do organismo do homem se revestiu de uma série de símbolos de domínio e poder, deixando de ser o que sempre foi e é: um instrumento da vida e do prazer.
Há cerca de dez ou quinze anos era comum ouvir em reuniões científicas como seria fantástico e prazeroso restituir ao homem sua potência apenas com a administração de um comprimido. Esse sonho parecia então distante ou que jamais se realizaria.
Depois do surgimento do Viagra, observou-se que a comunidade médica passou a participar mais intensamente de debates e simpósios para entender melhor a função sexual e suas dificuldades. Muita tinta e papel foram gastos para divulgar informações mais objetivas e consistentes, com o intuito de atenuar a frustração e o sofrimento de casais insatisfeitos.
O Viagra não apenas devolveu ao homem a ereção ou a potência, mas libertou-o de suas defesas, permitindo-lhe exprimir emoções sem se preocupar com o desempenho. Os valores machistas e os preconceitos sempre foram os responsáveis pela ditadura da performance sexual.
O Viagra tem se mostrado um forte aliado do homem não só para retomar a confiança em si e a auto-estima, mas também para garantir o aumento da excitação sexual feminina. Vem possibilitando a muitas mulheres atingir o orgasmo, experiência até então desconhecida.
Seu uso mais constante se verifica entre os 45 e os 65 anos, devido a um conjunto de fatores estressantes como a depressão, as discórdias conjugais e o início do aparecimento de distúrbios orgânicos (diabetes, hipertensão, câncer de próstata, alcoolismo). É relevante ressaltar, que jovens de 20 a 30 anos em cujo comportamento predominem a timidez e a insegurança sexual, quando têm a seu lado uma parceira mais liberada e ousada podem beneficiar-se de orientação psicológica associada ao Viagra para desenvolver maior autoconfiança.
Para homens machistas com idade entre 40 e 50 anos, o Viagra pode representar um grande inimigo. Eles usam o medicamento para colecionar novas conquistas. Trata-se de procedimento narcisista que não favorece o crescimento pessoal nem fortalece o vínculo entre os parceiros. É claro que o Viagra não vai solucionar os conflitos e a incapacidade de amar desses indivíduos. Casos assim nem Freud explica.
Embora a utilização do Viagra tenha sido vista com desconfiança e falta de transparência pela mulher, o medicamento pode ser um grande aliado feminino, pelo fato dela passar a conviver com um amante melhor e menos inseguro. O Viagra tem se revelado um aliado indispensável na melhora e na manutenção do vínculo amoroso. Contribuiu para a quebra de mitos e preconceitos sexuais, e muitos casamentos em crise passaram a desfrutar um relacionamento com mais alegria e prazer. O envelhecimento não se tornará um obstáculo à vida participativa e a sexualidade será mais ativa e presente, reduzindo o isolamento e a depressão. Os benefícios são incontáveis.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo


