Referindo-se à preocupação com temas de espiritualidade que um amigo lhe recomendava, a jovem, profundamente envolvida com sua carreira profissional, dizia não ter tempo para essas coisas e que não iria 'esquentar a cabeça' com elas. Fiquei apenas escutando, mas querendo lhe dizer que se ela começasse a dedicar um pouco do tempo diário para as ditas questões do desenvolvimento espiritual, com toda certeza isto sim esquentaria menos a cabeça com as coisas de sua vida. O caminho, certamente, lhe seria mais ameno para o estudo, os negócios, a carreira.
Cada qual é livre para fazer as coisas da forma que deseja, e não é lícito a ninguém ingerir nas crenças alheias, a não ser que haja consentimento e a ocasião propícia, mas é certo que as pessoas vão deixando para mais tarde, quem sabe na velhice, a busca de desenvolver a sua potencialidade transcendente. E assim padecem mais, esquentam mais a cabeça. É como usar o funil com a parte mais estreita para cima, ignorando a função contrária, que tornaria natural o fluxo.
Muitas coisas seriam mais facilitadas se desde a juventude as pessoas começassem a praticar o desenvolvimento de seu potencial interior, que é o que rege tudo. Assim, flanariam ao sabor do vento e nadariam na corrente das vagas, e não contra a maré. Ocorre que, deixando 'essas coisas' para a velhice, para quando haverá mais tempo como as pessoas dizem pode haver um difícil começo ou uma difícil retomada, pela falta de hábito, pelo entorpecimento de vontade ou pelo eventual endurecer de sentimentos.
É o que frequentemente acontece, porque muitos velhos tendem a sentir-se sós, inseguros e dependentes, pela simples razão de que não se prepararam espiritualmente para a velhice, embora tenham passado toda a vida cumprindo suas 'obrigações' religiosas. Alguns entram em depressão, ou porque sempre estiveram estribados nas coisas da materialidade ou porque se afundaram em crenças dogmáticas que lhe foram passadas, aceitando tudo sem nunca questionar e sem nada querer aprender de diferente, embora as tantas dúvidas.
Religiosidade não significa necessariamente espiritualidade. É verdade também que, num repente, qualquer pessoa pode ingressar no mais pleno estado de entendimento e enxergar a plenitude da verdade, mas isto não é comum se os canais ficaram obstruídos durante tanto tempo. Se cada um dispõe de uma vida inteira, é um desperdício não começar cedo o exercício de buscar os caminhos da realidade suprafísica, que faria tão mais fáceis e mais agradáveis as coisas da vida terrena.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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