A Universidade nasceu no contexto medievo como possibilidade de institucionalizar o debate teológico-filosófico da época. No seu interior brotou um processo de mão dupla: de um lado a teologia assumiu cada vez mais o trabalho de interpretação hermenêutica das doutrinas religiosas, o que culminou mais tarde na própria secularização da tradição Ocidental. De outro, a valorização das ciências matemáticas e experimentais efetivaram a possibilidade de desvendar os fenômenos da natureza, o que levou ao nascimento da ciência moderna. São dois lados de uma mesma moeda cunhada no interior da Universidade, e que hoje se encontram divorciados entre os que professam um naturalismo cientificista e aqueles que se valem das ortodoxias religiosas.
A Universidade que é a mais perene criação medieval ente nós, edificada em solo eminentemente religioso, não deve deixar de albergar o ecletismo e o pluralismo que lhe é própria. Se a ela cabe ser laica, sob a rubrica de um Estado constitucional, é justamente para que a sua comunidade de estudantes, funcionários e professores, sejam religiosos ou não religiosos, possam manifestar seus modus vivendi como cidadãos. Como instituição laica não pode a mesma exigir que os seus membros deixem de expressar seus valores sejam eles artísticos, culturais ou religiosos. Antes, ao contrário, deve fomentar condições de possibilidade para um pluralismo pacífico de ideias e experiências vivenciais.
Prosperar na ideia de que certos valores são impraticáveis na Universidade, exigiria da mesma a tarefa hercúlea de possuir uma tábua de valores, capaz de discriminar quais são aceitáveis no limite de suas fronteiras. O que descaracterizaria o seu laicismo. A mais fundamental finalidade da Universidade, além de ensino, pesquisa e extensão, é configurar-se como um espaço público para a tematização discursiva daqueles que se interrogam mutuamente e tentam formular respostas. Como ''animal político'', o ser humano vive numa rede de relações sociais pela qual desenvolve competências que o transforma em pessoa, sendo isso possível no interior de um espaço público que forneça os mais diversos estímulos culturais. A Universidade é, por excelência, tal espaço.
Quando posturas extremas são adotadas, nem os defensores do naturalismo cientificista nem os adeptos das ortodoxias religiosas fazem avançar o debate, permanecendo ambos os lados petrificados na irreconciliável antinomia ''secular/religioso''. Normas de convivência capazes de fundar a tolerância e a solidariedade dependem do assentimento geral, e não de decisões unilaterais. É necessário debater, pois os discursos permitem a todos os atingidos tomar a palavra simetricamente e a adotar a perspectiva do outro. Na atual sociedade, dotada de uma pluralidade de visões de mundo, a coexistência de diferentes modos de vida não pode ser realizada mediante o cerceamento. A igualdade de direitos no Estado democrático deve favorecer a integração dos cidadãos e o reconhecimento recíproco de suas pertenças a diferentes grupos sociais, culturais e religiosos, sem esquecer, contudo, que todos pertencem a uma mesma comunidade política.
Se a Universidade é primeiramente lugar de aprendizado, que possamos com ela e a partir dela aprender a prática da pluralidade e da tolerância, ingredientes necessários para o exercício da democracia e de um Estado verdadeiramente laico e constitucional.
CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR é professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina e RAFAEL ALVES DE SANTANA é mestrando em Ética e Filosofia Política na Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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